“Israel abandonou qualquer pretensão de conter o conflito no Líbano e suas ações indicam uma campanha prolongada, com o objetivo explícito de desmantelar a capacidade militar do Hezbollah e ocupar o sul” do território. A afirmação é da pesquisadora Muna Omran, especialista na geopolítica sobre Oriente Médio e docente da PUC Minas.
Em 8 de abril, Estados Unidos e Irã firmaram um acordo de cessar-fogo temporário. No mesmo dia, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou que uma trégua nos ataques contra o sul do Líbano não fazia parte do acordo e lançou a Operação Escuridão Eterna, descrevendo-a como um dos maiores bombardeios coordenados na região em décadas, com mais de 100 localidades alvejadas. Ao menos 254 pessoas morreram e 1.165 ficaram feridas em uma ofensiva que atingiu áreas densamente povoadas de Beirute.
“Arrisco fazer coro a alguns analistas em dizer que o cenário mais provável para o Líbano nos próximos seis meses é a consolidação de uma ‘guerra de desgaste’ que se aproxima perigosamente de um conflito aberto e generalizado, em um ambiente volátil onde qualquer contenção sustentada parece estar fora de questão. Sem uma mediação internacional robusta que vá além do unilateralismo dos EUA, a situação para Beirute se torna não apenas difícil, mas potencialmente catastrófica, e um retorno a um status quo funcional é praticamente impossível”, afirmou Omran a Opera Mundi.
O Hezbollah classificou a ação como “agressão bárbara” e o Irã falou em “violação flagrante” do acordo. O Paquistão, mediador, declarou que o cessar-fogo deveria incluir o Líbano.
“Vemos de novo um cenário caótico que Israel quer, para causar a instabilidade interna e fazer o Líbano aceitar as condições que Tel Aviv deseja impor. Só que com isso, o governo libanês mostra também que não tem força militar nem política para negociar qualquer coisa com Israel sem que o Sul do Líbano não esteja nas negociações”.
Confira a entrevista de Opera Mundi com Muna Omran:
Opera Mundi: professora Muna, como avalia a intensidade e a natureza dos ataques israelenses contra o Líbano nas últimas semanas, em comparação com conflitos anteriores?
Muna Omran: está claro que Israel quer anexar o sul do Líbano e esse projeto não é recente. Tel Aviv ocupou o sul libanês em quatro grandes ocasiões desde 1978, com o argumento de garantir sua segurança, mas não é só isso. O sul do território, ideologicamente, é de interesse para o sionismo e seu projeto de estabelecer a “Grande Israel”, ideia retomada na fundação do Likud, partido de Netanyahu.
Além disso, Israel tem interesse no controle da água do rio Litani, sendo o principal alvo israelense por seu potencial de suprir a escassez no território israelense. Por isso que essa região é ambicionada desde antes da fundação de Israel, ainda em 1905 os planos sionistas sugeriam desviar o curso do rio para o sul, e a demanda foi formalmente apresentada pela Agência Sionista na Conferência de Paz de Paris em 1919, mas foi rejeitada.
Após a criação de Israel na primeira guerra árabe-israelense de 1948, o sul foi atacado e a vila de Hula viveu um dos mais terríveis massacres. Capturada em 24 de outubro pela Brigada Carmeli sem resistência, mulheres e crianças foram expulsas e a maioria dos homens com idades entre 15 e 60 anos foram executados a tiros. Os corpos foram deixados dentro de uma casa, que depois foi explodida sobre eles. A ofensiva não foi aleatória, Hula estava localizada a apenas 3 km do kibutz israelense de Manara e a poucos quilômetros do Rio Litani, uma zona sempre estratégica e de tensão.
Hoje, na perspectiva da ocupação sionista, e do projeto do Novo Oriente Médio apresentado por Netanyahu na ONU, o sul além dos recursos hídricos do Litani, traz ainda a descoberta de grandes campos de gás natural na bacia do Mediterrâneo Oriental, colocando assim, mais um recente interesse econômico na região.
Israel visa garantir e explorar essas reservas, que podem transformá-lo em um player energético global. Como a exploração em campos como o de Karish e Qana (ou Sidon) que gerou tensões, pois ambos os países reivindicam direitos sobre as áreas. Israel já opera no campo de Karish. Em 2022, para reduzir atritos, Tel Aviv e Beirute firmaram um acordo mediado pelos Estados Unidos para demarcar a fronteira marítima e compartilhar os royalties do campo de Qana, que se sobrepõe às zonas econômicas exclusivas de ambos, mas Israel sempre quer mais. Por isso digo que o interesse de Israel no sul do Líbano não é só uma questão de segurança, a região sempre foi vista como crucial para sua segurança e recursos, ideia que remonta a antes de sua fundação.
A senhora considera que os ataques atuais configuram uma escalada significativa ou uma continuação do padrão de confrontos com o Hezbollah?
Vejo mais como uma escalada progressiva, visando uma expansão sionista é claro. O Hezbollah está impopular no Líbano, enfraquecido por conta dos ataques de 2024, o assassinado do líder do grupo Hassan Nasrallah e a guerra no Irã. Além disso, com a queda de Bashar Al Assad na Síria houve o fim do corredor xiita.
Por sua vez, o Exército libanês ineficaz, a população dividida, ganhando força o movimento pela neutralidade libanesa, tudo isso gera o caos que Israel quer e se aproveita disso para escalar os ataques.

Foto: National News Agency Lebanon
A expansão sionista no sul libanês tem seguido passos semelhantes aos adotados na Palestina. O Parlamento israelense discute o plano do “Grande Israel”, que prevê a anexação de territórios do Líbano e até mesmo da Síria. Diante disso, é possível tomar medidas mais concretas para barrar esse avanço? O direito internacional tem instrumentos eficazes para interromper esse processo?
O Direito Internacional depois do genocídio em Gaza mostra toda a sua ineficiência, a ONU está em crise e não é uma contingência, é um sintoma do esgotamento terminal da ordem mundial fundada sobre os pilares de Westfália. O Conselho de Segurança, paralisado pelo poder de veto, e o direito internacional, crescentemente instrumentalizado pelas grandes potências, deixaram um vácuo de governança no qual prolifera o sofrimento humano e a instabilidade geopolítica.
Para o Oriente Médio, o colapso da arquitetura westfaliana tem sido particularmente brutal: a falência do sistema multilateral não é um debate teórico, mas uma realidade vivenciada na carne de civis bombardeados, refugiados e populações sitiadas. A região encontra-se em uma encruzilhada existencial entre a imposição violenta de novas realidades de força e a possibilidade de construir uma ordem pós-westfaliana que incorpore efetivamente os princípios de justiça e segurança.
Assim, a comunidade internacional enfrenta um dilema fundamental: a ordem westfaliana não pode ser restaurada, pois o mundo mudou irreversivelmente. O sistema ONU, como foi concebido, não pode ser eficaz, pois seus mecanismos de veto estão enraizados em uma constelação de poder que não existe mais. A solução reside, portanto, em uma reinvenção radical da governança global.
O destino da humanidade, e particularmente das populações do Oriente Médio, depende da capacidade coletiva de abandonar os mitos fundadores do passado e construir uma nova ordem que seja efetivamente democrática, juridicamente vinculante e capaz de impor limites à vontade unilateral dos Estados mais poderosos. Até lá, a ONU continuará a ser o que a economista Susan Strange chamou de “sistema westfailure”: uma bela fachada que oculta a operação nua e crua do poder, incapaz de oferecer às vítimas da guerra no Oriente Médio outra coisa senão a retórica vazia de suas resoluções e a impotência de suas deliberações.
Considerando a fragilidade do Estado libanês, qual a real capacidade de reconstrução e retorno dos deslocados caso o cessar-fogo se mantenha?
Acho difícil no atual quadro, embora o retorno já esteja ocorrendo de forma espontânea e arriscada, mas sem segurança (ataques pontuais persistem), sem infraestrutura básica (água, energia, saúde) e com habitações destruídas.
Por sua vez, o Estado tem uma capacidade muito baixa pois é um governo falido, sem recursos, crise econômica aguda, 80% da população abaixo da pobreza. Para a reconstrução é preciso um financiamento robusto, se fala em US$ 11 bilhões, segundo o Banco Mundial, mas apenas US$ 250 milhões obtidos até agora (empréstimo). Doações internacionais insuficientes e condicionadas a reformas e ao desarmamento do Hezbollah.
Porém, a Resistência Islâmica libanesa pode preencher parcialmente o vazio, mas sem coordenação estatal, gerando reconstrução fragmentada e paralela. Então, mesmo com cessar-fogo duradouro, o retorno será parcial, lento e inseguro. A reconstrução sustentável é improvável no médio prazo sem um choque de governança e recursos externos massivos.
Qual tem sido o papel do Estado libanês e de suas instituições oficiais diante dos ataques? O governo em Beirute tem autonomia para responder ou sua atuação é limitada pela influência do Hezbollah?
Vejo que o Estado libanês tem desempenhado um papel complexo e ambivalente. Ao mesmo tempo que tenta afirmar sua autoridade por meios diplomáticos e medidas internas inéditas, vê sua capacidade de resposta militar profundamente limitada pela atuação paralela e pela força do Hezbollah.
Por um lado, o primeiro-ministro Nawaf Salam, condenou repetidamente os ataques israelenses, classificando-os como uma violação da soberania nacional e do direito internacional. Já o presidente Joseph Aoun, por sua vez, declarou que faria o “impossível” para interromper a guerra, e sua estratégia se baseia em uma retirada israelense, o cessar-fogo e o envio do exército libanês para a fronteira, que não é garantia de nada, já que Israel não respeita nenhum cessar-fogo.
Para começar o sistema libanês é consensual, ou seja, não se chega a um acordo sem que este não passe pelo Parlamento e que os ministros não o aprovem. Tudo tem que passar por um um diálogo nacional, o país já ficou sem presidente por anos por conta disso.
O caminho da negociação continua, espero só que o Líbano mantenha os seus 10.452km2 do seu território soberano. Mas não creio que Israel aceitará, é muito além de desarmar ou não o Hezbollah, que nesse contexto é a única resistência capaz de proteger o Sul, uma vez que o exército libanês não tem estrutura para enfrentar Israel.
Como a senhora avalia as relações diplomáticas entre Brasil e Líbano no momento atual? O Brasil tem se posicionado na ONU pedindo cessar-fogo e condenado as agressões israelenses. Como avalia o papel do Brasil nesse cenário?
O Brasil tem uma tradição na diplomacia de se colocar como mediador de conflitos, foi o que vimos nos governos de FHC e petistas. No caso do Líbano, o país tem até um interesse maior, já que aqui está a maior diáspora libanesa de todo o mundo, há laços históricos, vilarejos como os de Sultan Yacoub onde praticamente todos falam português, qualquer libanês sempre terá um parente ou um amigo que imigrou.
Por conta dessa relação e pela estabilidade e segurança desses líbano-brasileiros, o Brasil acaba tendo um interesse maior. Mas o Brasil acaba tendo um papel limitado na tomada de decisões, pois não é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Vale lembrar que durante o genocídio em Gaza, o Brasil articulou uma resolução que teve 12 votos favoráveis, mas vetada pelos EUA.
Dessa forma, a atuação brasileira apesar de ter uma posição que serve para fortalecer a narrativa do Direito Internacional, não tem impacto prático. O Brasil tem um importante papel de consciência jurídica internacional, alinhando-se ao Sul Global, mas sem resultados práticos, ficando apenas como um observador.
O post ‘Israel abandonou qualquer pretensão de conter invasão no Líbano’, diz pesquisadora apareceu primeiro em Opera Mundi.
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