Economia

A partilha digital do sensível

Nos anos 2000, era publicado um texto do filósofo francês Jacques Rancière chamado A Partilha do Sensível, onde o autor elaborou e explicitou elementos definidores desse conceito que havia sido apresentado anteriormente, em seu livro O Desentendimento. Em sua obra, Racière trabalha a relação entre estética e política, demonstrando uma indissociabilidade fundamental entre ambas que revela como são reciprocamente necessárias para entendermos tanto uma quanto a outra. 

Rancière, todavia, não resume a estética como estudo do belo ou teorias da arte — apesar desta possuir papel fundamental —, mas como a própria maneira em que a experiência sensível se organiza, como e qual sensibilidade é socialmente distribuída. A partilha do sensível é, logo de saída, definida como “sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas” — o que implica então na produção de partes exclusivas nesse comum. 

O “usuário” específico de cada plataforma não é, então, um usuário abstrato, mas uma determinação concreta: ele é abordado desde uma demanda específica e, assim, produzido a partir dessa abordagem.
(Foto: Ya Feng / Unsplash)

Assim, essa divisão do comum “se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha”, o que tem por definição condicionantes materiais bem concretas e específicas, determinando quem “pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que essa atividade se exerce”. Enfim, trata-se de uma estética na “base” da política, que é resultado da condição de possibilidades para determinadas experiências sensíveis: o que ou quem pode estar em determinados espaços e não em outros, quem pode ou não falar e ser ouvido, o que será ou não será visto, etc. Por isso, a noção de partilha é fundamental, na medida em que determinada configuração estética revela algo sobre a natureza política subjacente ao que determina a emergência dessa própria configuração. Ou seja: o que define a emergência de determinada experiência sensível em detrimento de outras? O que prioriza ou privilegia o aparecimento de determinadas formas, mas constrange ou ignora outras?

Assim, a dimensão estética e a dimensão política revelam uma relação em certo sentido inconsciente. Não exatamente nos termos psicanalíticos, mas na medida em que há algo que não aparece para a consciência dos agentes ou sujeitos em questão, mas determina a própria experiência, a própria emergência, a característica mesma de manifestação e disposição dos seres no mundo — algo que determina as condições de possibilidade da experiência sensível. E é também dessa maneira que a arte torna-se espaço privilegiado de experimentação e criação sensível, não agindo de forma “direta” na política, mas criando condições de renovação, subversão, criação e disrupção estética.

Essa perspectiva fornecida por Rancière é útil para pensarmos diversas dinâmicas contemporâneas, mas é particularmente fortuita para refletirmos sobre como as arquiteturas de plataformas algorítmicas hoje organizam uma partilha do sensível muito específica, de modo que a própria digitalização se revela como imposição de regimes estéticos. Essa imposição se dá, em um plano mais “imediato”, na curadoria algorítmica automatizada de conteúdos e informações, que deriva do perfilamento de usuários em plataformas projetadas para a captura de atenção e extração de dados. Toda essa dinâmica é condicionada pelo design das plataformas, com interesses específicos imiscuídos desde seu projeto. 

O “usuário” específico de cada plataforma não é, então, um usuário abstrato, mas uma determinação concreta: ele é abordado desde uma demanda específica e, assim, produzido a partir dessa abordagem. Assim, o ponto abordado por Marx na Introdução à Crítica da Economia Política, de que “a produção não cria só um objeto para o sujeito; cria também um sujeito para o objeto”, ganha uma nova dimensão, na medida em que a relação entre o usuário com uma interface digital é ela mesma também uma relação de produção, na medida em que produz justamente o usuário. E não é menos relevante que Marx mobilize de saída o objeto artístico, um exemplo por excelência de objeto que “cria um público sensível e capaz de fruição estética.”

Todavia, no regime estético condicionado pelas plataformas, o que está em jogo fundamentalmente é o modo de distribuição: a lógica abstrata da curadoria algorítmica, automatizada por técnicas de aprendizado de máquinas, que irá definir de modo opaco a distribuição e circulação dos conteúdos. Nesse contexto, a dinâmica da distribuição afeta de maneira inédita a própria produção, na medida em que condiciona o que é produzido desde a expectativa de “entrega”: o formato se dobra às demandas um tanto “espectrais” do algoritmo, que opera uma mediação opaca entre o que (supostamente) é recomendado para determinados usuários, e como determinado conteúdo deve apelar à essa mediação. 

Assim formam-se as predisposições estéticas condicionadas pelas mídias digitais hegemônicas hoje. A noção de condicionamento não é mera analogia, pois a arquitetura das plataformas é diretamente influenciada pela tradição da psicologia behaviorista, que irá se encontrar com a psicometria digitalizada pelo perfilamento dos usuários através de uma quantidade massiva de dados, desaguando em uma nova tecnologia comportamental em larga escala. É nessa querela que a partilha digital do sensível se desdobra, e os efeitos deste regime estético afetam desde a vida psíquica até a vida política.

Todavia, não deveríamos simplesmente tirar da cartola o “condicionamento algorítmico”, o “behaviorismo digital” ou a “governança de plataformas” para, em um passe de mágica, explicarmos de forma determinista todos os impasses do contemporâneo. Esse processo se insere em uma dinâmica maior, com uma história que remonta aos fundamentos da própria modernidade, passando pelas estruturas coloniais, a racionalização do esclarecimento, até a formação do sistema industrial da cultura desde o século passado e a produção de artefatos como verdadeiros agentes sociais, desprovidos de subjetividade, automatizados e que operam em diversas escalas e estratos sociais. 

Nesse sentido, a obra de Rancière e suas reflexões sobre a interface entre estética e política nos auxiliam no pensamento não determinístico dessas dinâmicas e podem contribuir para a compreensão da modulação sensível que as plataformas digitais operam. Cada vez mais, apesar da tão aclamada metrificação individualizada das plataformas, os formatos midiáticos tendem a convergir para uma homogeneização constante; ao mesmo tempo, o encurtamento da atenção, a fragmentação da memória e o constante hiperestímulo denotam uma redução da complexidade subjetiva equivalente à complexificação objetiva das infraestruturas informacionais. A partilha digital do sensível parece determinar a experiência para além das plataformas: os modos de produzir e experienciar as artes visuais, a literatura, a música, vão sendo constrangidos por um regime estético imediatista. As consequências culturais desse cerceamento não possuem apenas efeitos políticos, mas devem se inscrever elas mesmas como pauta política urgente.   

(*) Cian Barbosa é morador do Rio de Janeiro, sociólogo (UFF), doutor em filosofia (UNIFESP), doutorando em psicologia (UFRJ) onde é membro do Laboratório de Psicopatologia Fundamental em Estudos de Subjetividade e Emergência Humanitária. Pesquisa digitalização, tecnologia, teoria do sujeito, crítica da cultura, violência e ideologia; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de coordenador e professor no Centro de Formação.

O post A partilha digital do sensível apareceu primeiro em Opera Mundi.


Fonte:

{item_site}