Economia

Negociações em Cuba

Cuba atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história recente. À sua economia já complicada soma-se, neste ano, um rigoroso bloqueio petrolífero imposto pela Casa Branca, que agrava uma situação econômica e social já precária.

Não é preciso dizer que essa medida unilateral, apoiada pela força da frota americana, viola todos os princípios do direito internacional, mas isso, infelizmente, é algo que se tornou comum nos últimos tempos. Também é verdade que a economia cubana vem fazendo água há bastante tempo. Alguns dizem que a culpa é do bloqueio, outros culpam o sistema econômico. É provável que a verdade esteja no meio.

A primeira coisa que seria necessário destacar é que não se trata da primeira negociação. O renomado politólogo americano Bill Leogrande escreveu um estudo bem documentado há alguns anos. Nos tempos de Fidel, sempre existiu uma ponte, um ponto de diálogo, raramente formal, mas, fosse um grupo de senadores americanos, de empresários ou de diversas personalidades, sempre houve algum tipo de canal de comunicação.

Ao contrário da Venezuela, que dispõe de reservas de petróleo indispensáveis para toda a economia norte-americana, Cuba não possui um recurso da mesma importância.
(Foto: Bryan Ledgard / Flickr)

Quem negocia?

Atualmente, a novidade é que ambas as partes reconheceram a existência de negociações. Não é só isso: os negociadores são representantes de ambos os Estados, não há bons ofícios de terceiros; de um lado, estão funcionários do governo americano e, do outro, funcionários do governo cubano.

Isso é interessante porque, ao contrário do caso venezuelano, a oposição cubana se estabeleceu há décadas na Flórida, onde se consolidou politicamente e também se tornou uma poderosa força econômica. Essa circunstância explica que, por vezes, em Washington, surgissem vozes que comentavam reservadamente que a política dos EUA em relação a Cuba não era definida no Potomac, mas na Flórida.

O que se negocia?

Ao contrário da Venezuela, que dispõe de reservas de petróleo indispensáveis para toda a economia norte-americana, Cuba não possui um recurso da mesma importância. O turismo é talvez uma das áreas mais interessantes para investir. Mas, para a colônia cubano-americana, a questão da mudança de regime político tem prioridade equivalente à mudança do sistema econômico.

Atenção: estas notas baseiam-se em informações públicas; sabemos que existem negociações formais, mas sobre o conteúdo da negociação temos apenas interpretações de fontes secundárias.

Outro tema surge das características da sociedade cubana. Em Cuba existe o Estado, talvez em excesso para os padrões atuais, e, ao mesmo tempo, a sociedade civil é quase inexistente. Portanto, uma hipótese que paira nas análises é que, se o estrangulamento energético (e alimentar, sanitário e produtivo que ele provoca) levasse a uma desestabilização de magnitude desconhecida, não existiria capacidade de controle territorial. O fantasma de um êxodo em massa para a Flórida surge imediatamente.

Hoje, o controle territorial da ilha está nas mãos das instituições estatais, especialmente das Forças Armadas Revolucionárias (FAR). Esclareçamos: uma invasão, o uso da força, apesar da assimetria de poder, seria extremamente custosa em vidas humanas (cubanas e americanas). As FAR possuem moral de combate e, acrescentemos, boa parte da população pode estar insatisfeita com o regime político e econômico, mas é profundamente nacionalista. A título de exemplo, basta observar que, na detenção de Nicolás Maduro, o maior número de baixas uniformizadas foi por conta da escolta cubana.

Isso não nega que a sociedade cubana esteja profundamente desesperada com a situação; nos últimos anos, mais de um milhão de pessoas emigraram, especialmente jovens.

O momento internacional

Atualmente, os EUA estão concentrados em suas negociações com o Irã. Washington precisa sair desse atoleiro estratégico, mas não a qualquer preço; entre outros elementos, precisa de uma narrativa de vitória que justifique parcialmente essa aventura. O presidente Trump não hesitou em afirmar que “na nossa volta, passaremos por Cuba”.

Mas, na América Latina, os EUA precisam administrar outro conflito: a Venezuela. Embora tenham se apoderado do petróleo e capturado Maduro, o cerne do regime continua de pé. Para dar início a uma abertura econômica (leia-se privatização), isso continua pendente. Quanto às reformas políticas, parece que o momento ainda não chegou.

Washington precisa sair do Oriente Médio, avançar em seus objetivos na Venezuela, em suas negociações com Cuba e, acima de tudo, prosseguir o diálogo com a República Popular da China (RPC). Conseguirá a Casa Branca avançar em todas essas frentes antes das eleições de fim de ano?

(*) Gabriel Gaspar é cientista político, ex-embaixador do Chile na Colômbia e em Cuba e ex-embaixador da Missão Especial pela Demanda Marítima boliviana na Corte Internacional de Haia. Foi vice-ministro da Defesa, Forças Armadas e Guerra. É analista político e colunista.

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