Economia

Elisa Branco: a costureira que impediu o Brasil de lutar em uma guerra

Há 25 anos, em 8 de junho de 2001, falecia a costureira e militante comunista Elisa Branco. Filiada ao PCB e ativa nos movimentos populares desde a juventude, Elisa se destacou pela defesa dos direitos das mulheres e dos trabalhadores e por sua luta em prol da paz.

Elisa liderou a mobilização nacional contra o envio de soldados brasileiros para lutar ao lado dos Estados Unidos na Guerra da Coreia. Sua trajetória ganhou projeção mundial em setembro de 1950, quando ela desfraldou uma enorme faixa contra a guerra durante os desfiles militares do Dia da Independência.

O gesto custou a Elisa uma sentença de quase cinco anos de prisão, mas também deu início a uma enorme campanha que mobilizou milhões de pessoas e forçou o governo Dutra a recuar no apoio à guerra. Em 1952, Elisa foi condecorada com o Prêmio Stalin da Paz, concedido pelo governo da União Soviética.

Quem foi Elisa Branco

Elisa Branco Batista nasceu em 29 de dezembro de 1912, na cidade de Barretos, no interior de São Paulo. Ela era a única menina entre os cinco filhos de Carolina e José, um casal de imigrantes portugueses. A família era dona de um armazém e de uma pequena pensão na cidade, o que permitiu a Elisa crescer em um ambiente de relativa prosperidade e estabilidade econômica.

A morte precoce do pai, no entanto, resultou em crescentes dificuldades financeiras, forçando a jovem a abandonar os estudos e a trabalhar desde cedo. Elisa eventualmente se tornou costureira, ofício que exerceu pelo resto da vida.

Em 1932, então com 20 anos, Elisa se casou com Norberto Batista, funcionário de um frigorífico local. O relacionamento foi bastante tumultuado. Norberto era ciumento e possessivo e chegou a agredir Elisa em algumas ocasiões. O casal teve duas filhas, batizadas como Florita e Horieta.

Pouco tempo após o casamento, Elisa se mudou para Bebedouro com Norberto e as filhas pequenas. O marido havia arrumado emprego em uma fábrica de vagões na cidade. Elisa passou a costurar para as esposas e filhas de fazendeiros da região, mas era submetida à exploração e salários miseráveis — uma experiência que a levou a desenvolver uma consciência crítica sobre as relações de classe.

Conforme relatado pela filha Horieta, Elisa se filiou ao Partido Comunista do Brasil (denominação original do PCB) ainda nos anos 30. Sua adesão ao partido foi influenciada sobretudo pela admiração que nutria por Luiz Carlos Prestes — célebre comandante da coluna guerrilheira criada nos anos 20 para combater as forças da Primeira República.

Elisa participou de diversas atividades do PCB, mas teve de se afastar da militância em função de problemas de saúde. A costureira intensificaria sua atuação política em meados dos anos 40, em meio à reestruturação do partido, legalizado nos estertores do Estado Novo. Tornou-se vice-presidente do Departamento Feminino, integrou o Comitê Popular Democrático de seu bairro e chegou a ocupar o posto de secretária do Comitê Municipal em Barretos.

A Guerra Fria e a Guerra da Coreia

A experiência da legalidade do PCB durou pouco tempo. Assustados com o bom desempenho eleitoral do partido nos pleitos de 1945 e 1947, os setores conservadores pressionaram pela intervenção das autoridades.

A campanha anticomunista se agravou ainda mais com o início da Guerra Fria e o alinhamento do governo de Eurico Gaspar Dutra aos ditames da política externa de Washington. O PCB foi acusado de violar a Constituição e de ser uma organização subserviente aos interesses da União Soviética. Em 1947, o Tribunal Superior Eleitoral cancelou o registro eleitoral do partido. No ano seguinte, todos os mandatos dos parlamentares comunistas foram cassados por decisão do Congresso.

Além da perseguição aos comunistas, Dutra deu respaldo incondicional às ofensivas militares planejadas pela Casa Branca — incluindo a Guerra da Coreia. Após o início do conflito, os Estados Unidos pressionaram fortemente seus aliados e governos vassalos a apoiá-los em uma intervenção armada na Coreia do Norte, a fim de derrubar o governo socialista de Kim Il-Sung, aliado à União Soviética e à China.

Para revestir suas ações com a aparência de legitimidade internacional, o governo norte-americano despachou suas tropas sob a bandeira da ONU. Dutra concordou com o envio de soldados brasileiros para auxiliar na intervenção. O mandatário chegou a fazer um pronunciamento em rede nacional defendendo a participação do Brasil na guerra — posição endossada pela maioria dos membros da ala liberal do governo, mas criticada por representantes da ala nacionalista.

: Elisa Branco (de vestido branco) recebe o Prêmio Stalin da Paz
wikimedia

A Campanha pela Paz

A participação do Brasil na Guerra da Coreia era dada como certa e muito provavelmente teria ocorrido, não fosse a intervenção dos comunistas — em especial de Elisa Branco, que liderou o movimento de oposição à ideia. Mesmo submetido à clandestinidade, o PCB se mantinha politicamente ativo e ainda preservava sua capacidade de mobilização popular.

Após se mudar para a capital paulista, Elisa integrou a Campanha pela Paz Mundial, colhendo assinaturas na Praça do Patriarca em prol do “Apelo de Estocolmo” — manifesto que reivindicava o desarmamento nuclear e buscava conscientizar os povos do mundo sobre o risco de uma guerra atômica.

Elisa também integrou a Federação das Mulheres de São Paulo e o Movimento Brasileiro dos Partidários da Paz, coordenando as campanhas de conscientização popular, explicando aos trabalhadores os motivos pelos quais o Brasil não deveria enviar seus soldados para morrer em um conflito que não dizia respeito a nenhum interesse nacional.

A atuação política de Elisa a transformou em alvo dos órgãos de vigilância do Estado, que já a monitoravam desde a época em que morava no interior. Em 1949, ela chegou a ser detida enquanto participava do Primeiro Congresso dos Trabalhadores Têxteis do Estado de São Paulo.

A vigilância policial não bastou para intimidar Elisa. No feriado de 7 de setembro de 1950, ela organizou um grande protesto contra o envio de tropas brasileiras. Acompanhada por um grupo de mulheres, Elisa compareceu ao desfile militar do Dia da Independência, sediado no Vale do Anhangabaú. Diante do palanque oficial do cortejo, a militante comunista desfraldou uma enorme faixa com os dizeres “Os soldados, nossos filhos, não irão para a Coreia”.

A manifestação durou pouco tempo, mas causou enorme impacto, sendo vista por milhares de pessoas e conferindo visibilidade à mobilização pacifista na imprensa. Elisa foi imediatamente presa, acusada de atentar contra a segurança nacional e ofender as Forças Armadas.

Campanha pela Libertação

Em janeiro de 1951, Elisa foi condenada a quatro anos e três meses de prisão por um Tribunal Militar e encarcerada no Presídio Tiradentes. Os comunistas iniciaram então uma nova campanha, não apenas contra o envio de militares brasileiros para a guerra, mas também exigindo a libertação da costureira.

Mesmo encarcerada, Elisa seguiu participando da mobilização contra a guerra, escrevendo cartas e apelos à população. “Não criamos nossos filhos para a guerra. Para eles sonhamos e procuramos sem cessar um novo mundo de felicidade, de igualdade e de justiça (…) Que mãe não sentirá horror só de pensar que as mãos dos filhos que amamentaram e viram crescer se tinjam do sangue de tantos inocentes ou bravos patriotas, nas longínquas terras da Coreia? Que mãe deixará que seu próprio filho morra perdido nos campos gelados daquele país onde tropas estrangeiras destroem cidades e matam famílias inteiras?”, dizia uma de suas correspondências.

Jornais como o “Voz Operária” e a “Imprensa Popular” publicaram as cartas de Elisa e textos denunciando a arbitrariedade da sua prisão. Diversos intelectuais atuaram na campanha — incluindo o anarquista Afonso Schmidt, que homenageou Elisa em um de seus poemas, identificando-a como “a rosa das obreiras”. Manifestos de solidariedade e abaixo-assinados foram enviados de todas as regiões do Brasil e até de outros países.

Em paralelo, o PCB articulava a criação dos Comitês Pró-Paz, conversando com os trabalhadores nas saídas das fábricas e comércios e organizando tribunas abertas nas praças das cidades. Manifestações reunindo milhares de populares começaram a ocorrer em várias cidades do Brasil, sempre entoando o grito de guerra “nossos jovens não irão para a Coreia”.

O abaixo-assinado em prol do Apelo de Estocolmo conseguiu angariar mais de quatro milhões de assinaturas no Brasil. Até mesmo jogadores da Seleção Brasileira de Futebol subscreveram o manifesto contra a guerra e as armas nucleares.

Surpreendido pela reação negativa da sociedade, o governo Dutra recuou e desistiu da ideia de enviar tropas para lutar na Guerra da Coreia, limitando-se a fornecer apoio diplomático e insumos aos norte-americanos no decorrer do conflito.

Elisa Branco permaneceu presa por um ano e oito meses, até ser absolvida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro de 1952. Dentro da prisão, ela alfabetizou as detentas, deu aulas de corte e costura, higiene pessoal e noções de política.

Atuação posterior

Posta em liberdade, Elisa foi internacionalmente aclamada por suas ações heroicas. Em 23 de dezembro de 1952, em uma cerimônia no Palácio do Kremlin, em Moscou, o governo da União Soviética condecorou a brasileira com o Prêmio Stalin da Paz (posteriormente renomeado como Prêmio Lenin da Paz), concedido às pessoas de todo o mundo que contribuíram para construir a paz entre os povos. Elisa é uma das três pessoas do Brasil agraciadas com o prêmio, ao lado do escritor Jorge Amado e do poeta Oscar Niemeyer.

Elisa seguiria fiel à causa comunista pelo resto de sua vida e enfrentaria novos episódios de perseguição. Ela foi presa após o golpe militar de 1964, ficando encarcerada por oito dias. Implicada no caso das “Cadernetas de Prestes”, tornou-se alvo de inquérito policial e foi detida mais uma vez em 1966. Por fim, em 1971, a costureira teve sua casa invadida e foi novamente presa pelos agentes da repressão.

Seguindo os passos de Luiz Carlos Prestes, Elisa se desligou do PCB em 1980. Duas décadas depois, em março de 2000, ela participou da fundação do Partido Comunista Marxista-Leninista. Faleceu em São Paulo no ano seguinte, em 8 de junho de 2001, aos 88 anos de idade.

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