Economia

O Pix é político

O Pix é frequentemente apresentado como uma realização técnica do Banco Central. A descrição é verdadeira e insuficiente ao mesmo tempo, porque reforça uma mentira conveniente à ortodoxia liberal. 

Toda decisão sobre quem produz infraestrutura, para quem e com qual lógica, é uma decisão política. A separação entre técnica e política é ficção positivista, útil para despolitizar escolhas que têm conteúdo programático claro.

Donald Trump recebe Flávio Bolsonaro no Salão Oval, na Casa Branca. (Foto: Reprodução/X Eduardo Bolsonaro)

O Pix tem conteúdo ideológico claro. Prescreve que o Estado produza infraestrutura financeira, de forma gratuita, para todos. O credo liberal canônico prescreve o contrário: que o mercado resolva.

O mercado teve décadas para resolver. Produziu o DOC e o TED, com tarifas, com restrição de horário, para quem já tinha acesso. A iniciativa privada construiu infraestrutura de pagamento para cobrar, não para incluir e ampliar a bancarização. 

Os estudos para o Pix começaram no Banco Central ainda sob Ilan Goldfajn, no governo Temer, com raízes numa agenda de inclusão financeira que vem dos governos do PT. A ideia amadureceu ao longo de pelo menos três gestões da instituição, carregando uma lógica que o liberalismo ortodoxo considera inadmissível: a de que cabe ao Estado produzir o que o mercado não quis, não soube e não teria interesse em construir.

Foi a burocracia do Estado que carregou esse projeto. A mesma burocracia que o senso comum antiestatista trata de forma preconceituosa como sinônimo de ineficiência e obstáculo. Aqui ela funcionou, com continuidade, com método, com resultado.

Em fevereiro de 2020, o sistema ganhou nome público. Em outubro, o Banco Central estabeleceu gratuidade para pessoas físicas e impôs participação compulsória às instituições financeiras. Não convidou os bancos. Obrigou-os.

Quem assinou tudo isso foi Roberto Campos Neto, neto de Roberto Campos, indicado por Jair Bolsonaro, próximo de Paulo Guedes. Campos Neto foi esperto o suficiente para respeitar o que a burocracia havia construído e não interromper o que já estava em curso.

Bolsonaro, por sua vez, não sabia o que estava acontecendo. Em outubro de 2020, quando um apoiador tentou parabenizá-lo pelo Pix, a resposta foi: “Não tomei conhecimento, vou conversar esta semana com o Campos Neto.” O presidente desconhecia a principal política pública em execução no seu próprio governo.

Se soubesse, e se Paulo Guedes tivesse sido chamado a tempo, é razoável supor que o desfecho seria diferente. O Pix chegou a ser lançado porque o governo que deveria ter impedido não sabia que ele existia. Parece piada, mas não é. 

Intervenção do Estado na economia. Burocracia pública tomando decisão que caberia ao mercado. Participação compulsória imposta a instituições privadas. Gratuidade garantida por regulação. São exatamente os ingredientes que o Banco Mundial, o Consenso de Washington e 30 anos de ortodoxia liberal brasileira apontaram como causas do atraso, e repetiram com tanta convicção que muita gente ainda acredita.

No Pix, esses ingredientes produziram o maior salto de inclusão financeira da história do país. Uma política gestada em governos progressistas, executada pela burocracia de Estado, implementada num governo de direita que não sabia o que estava sendo feito no próprio seio do aparato público. O mercado, deixado à própria lógica, produziu tarifa.

O resultado está à vista. Mais da metade das transações de pagamento no Brasil passam hoje pelo Pix, gratuito, interoperável, 24 horas por dia. Um sistema que tirou de Visa, Mastercard e WhatsApp Pay um mercado que eles consideravam seu. E é exatamente por isso que incomoda quem manda lá fora.

Em julho de 2025, o governo Trump abriu uma investigação comercial contra o Brasil sob a Seção 301, incluindo entre os alvos os serviços de pagamento eletrônico. Em junho de 2026, a investigação avançou para uma proposta de tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, sob o argumento de que práticas brasileiras prejudicariam empresas americanas.

O Pix aparece nesse pacote como aquilo que Washington chama, em linguagem comercial, de favorecimento a um “campeão nacional”. Vale registrar: os mesmos Estados Unidos que durante décadas exportaram o receituário do livre mercado para a América Latina, que financiaram organismos internacionais para pregar contra a intervenção do Estado na economia, praticam hoje protecionismo declarado quando um país do Sul constrói uma infraestrutura pública que atrapalha seus interesses privados. O ultraliberalismo, ao que parece, é uma doutrina para os outros.

Portanto, o Pix é sim político. Sempre foi. Essa neutralidade técnica que lhe atribuem é a maior ficção do debate econômico brasileiro. E a prova mais recente não veio de Brasília. Veio de Washington.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.

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