Há 86 anos, em 10 de junho de 1940, falecia o empresário, jornalista e militante jamaicano Marcus Garvey. Ele foi o fundador da Associação Universal para o Progresso Negro (UNIA) e inspirador do garveísmo, uma corrente do nacionalismo negro influenciada por valores reacionários.
Garvey ganhou enorme popularidade nos Estados Unidos durante a década de 1920, onde estabeleceu diversas iniciativas comerciais voltadas à comunidade negra, incentivando o orgulho racial, o empreendedorismo e a independência financeira. Radicalmente anticomunista, ele defendia que o “capitalismo negro” era o legítimo instrumento que garantiria a emancipação dos afro-americanos.
O líder jamaicano também se destacou por sua controversa proposta de “retorno à África”, pregando a colonização do continente africano por uma elite ilustrada de descendentes da diáspora. Também foi um defensor da “pureza racial negra” e chegou a se aliar a lideranças da Ku Klux Klan na defesa do regime segregacionista.
Da juventude à criação da UNIA
Marcus Mosiah Garvey nasceu em 17 de agosto de 1887, em Saint Ann’s Bay, na Jamaica, então uma colônia do Império Britânico. Filho de um pedreiro e uma empregada doméstica, ele cresceu em uma sociedade ainda profundamente marcada pelo racismo e pela exclusão social, frutos da estrutura socioeconômica herdada do período escravagista.
Garvey concluiu o ensino básico em uma escola metodista e, aos 16 anos, mudou-se para Kingston, onde conseguiu emprego como impressor e tipógrafo. O ofício facilitou seu contato com jornais, livros e debates políticos que circulavam pelo Caribe. Em 1908, Garvey liderou uma greve de impressores, o que lhe valeu a perseguição das autoridades britânicas e o rótulo de “agitador”.
Entre 1910 e 1914, Garvey fez uma série de viagens por países da América Central e da América do Sul. Esteve também em Londres, onde se dedicou ao estudo das obras de Booker Washington e teve contato com as ideias do pan-africanismo.
De volta à Jamaica, Garvey fundou a Associação Universal para o Progresso Negro (UNIA, no acrônimo em inglês), uma organização destinada a promover o auxílio mútuo entre os povos negros em escala mundial e a fomentar o orgulho racial e a valorização da herança africana.
Garvey se mudou para os Estados Unidos em 1916, estabelecendo-se no bairro do Harlem, principal reduto da comunidade negra de Nova York. Ele abriu uma seção local da UNIA na cidade e conseguiu arregimentar diversos seguidores, atraídos por seus discursos vigorosos em prol da autonomia da população negra.
“Capitalismo negro”
A UNIA cresceu exponencialmente nos anos seguintes, estabelecendo filiais em 25 estados e chegando a agregar mais de dois milhões de membros. Uma das principais linhas de ação da organização era o incentivo ao empreendedorismo e à independência econômica dos afro-americanos.
A despeito de ter vivenciado as consequências nefastas da exclusão econômica para a população negra das Américas, Garvey se tornou um dos principais ideólogos do que viria a ser conhecido como “capitalismo negro”. Ele defendia a criação de empresas, bancos e fábricas controlados por negros, acreditando que o desenvolvimento de uma classe empresarial negra era o caminho mais factível para viabilizar a emancipação racial.
Garvey dizia que o capitalismo era “necessário para o progresso do mundo” e que seus críticos eram “inimigos do progresso humano”. Anticomunista ferrenho, ele se engajou em campanhas para convencer os afro-americanos a se afastarem da esquerda. E, a despeito de seu passado como líder da greve dos gráficos e tipógrafos na Jamaica, tornou-se cada vez mais hostil às organizações trabalhistas e movimentos sindicais.
Negros progressistas eram proibidos de se filiar à UNIA. O líder jamaicano também incitava seus partidários a atacar as manifestações trabalhistas e os comícios organizados por lideranças de esquerda. Garvey justificava sua postura dizendo que o comunismo era uma “invenção dos brancos”. Em resposta, a Internacional Comunista caracterizou suas ideias como “filosofia reacionária e pequeno-burguesa”.
Garvey frequentemente defendia preceitos baseados em revisionismo e na negação da realidade, ignorando deliberadamente o recorte de classes e utilizando-se de contorcionismo verbal e de falácias lógicas para justificar a exploração capitalista. Ele dizia, por exemplo, que os operários brancos — e não a burguesia ou a classe dirigente — eram os verdadeiros inimigos dos trabalhadores negros.
O jamaicano também defendia que, enquanto não fosse possível desenvolver uma economia capitalista negra, os afro-americanos deveriam aceitar salários mais baixos que os brancos, ignorar greves e sindicatos, e aspirar a se tornar “seus próprios empregadores”. Em suas palavras: “O único amigo conveniente que o trabalhador negro tem na América neste momento é o capitalista branco […] Se o negro seguir meu conselho, ele se organizará por si mesmo e sempre manterá sua escala salarial um pouco mais baixa que a dos brancos até que seja capaz, através de liderança adequada, de se tornar seu próprio empregador”.

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Black Star Line, “retorno à África” e KKK
O mais ousado empreendimento comercial de Garvey foi a Black Star Line, uma companhia de navegação destinada a transportar passageiros e mercadorias. A ideia de Garvey era operar navios controlados por negros e promover o comércio entre as nações africanas e as comunidades da diáspora. Além da Black Star Line, Garvey também impulsionou a criação da Negro Factories Corporation, uma holding que administrava diversos empreendimentos, de restaurantes e lavanderias até pequenos estabelecimentos industriais.
A UNIA e a Black Star Line seriam os sustentáculos de um dos projetos mais controversos propostos por Garvey — a ideia do “regresso à África”. Inspirado no exemplo da Libéria, Garvey passou a coordenar esforços para promover uma campanha global de “retorno” dos negros de todos os continentes para a África.
Embora justificado sob um discurso anticolonial, o projeto de Garvey era essencialmente colonialista. O empresário acreditava que os descendentes da diáspora (em especial os norte-americanos) estariam em condições de formar uma nova elite no continente africano, capaz de explorar a mão de obra nativa e, em suas palavras, “ajudar a civilizar as tribos africanas atrasadas”.
Em 1920, durante uma conferência organizada pela UNIA em Nova York, Garvey chegou a se autoproclamar como “Presidente Provisório da África” e a estabelecer um “governo no exílio” que não tinha respaldo de nenhuma comunidade nativa. Curiosamente, mesmo sendo um dos maiores entusiastas do “retorno” dos descendentes da diáspora, o líder jamaicano nunca visitou o continente africano.
O racialismo e o apoio à segregação racial também eram aspectos controversos do pensamento de Garvey. O empresário acreditava que a convivência pacífica e igualitária entre brancos e negros nos Estados Unidos era impossível e que a solução seria reforçar a separação completa das etnias. Em muitos discursos e textos, Garvey também demonstrou desconfiança em relação aos mestiços e negros de pele mais clara, associando-os a uma suposta tendência de assimilação ou colaboração com as elites brancas.
Usando como justificativa a cooperação entre mestiços e brancos na América Central durante o período colonial, Garvey passou a criticar a miscigenação, a atacar os mestiços e a defender a ideia de “pureza racial”. Em certa ocasião, chegou a declarar que acreditava “em uma raça negra pura, tal como todos os brancos que se prezam acreditam em uma raça branca pura”.
Não por acaso, os projetos de Garvey ganharam a simpatia de alguns dos setores mais reacionários da sociedade norte-americana, flertando com as ideias de grupos que pregavam a defesa da supremacia branca.
Garvey apoiou um projeto de lei apresentado por um senador de extrema direita assumidamente racista que propunha o “repatriamento forçado” para a África de todos os afro-americanos.
Membros da Ku Klux Klan costumavam ser convidados para discursar nos comícios organizados por Garvey na UNIA. O empresário costumava agradecer aos brancos pelas Leis de Jim Crow, que impunham a segregação racial nos Estados Unidos. Ele chegou a afirmar que considerava a Ku Klux Klan, os clubes anglo-saxões e as sociedades supremacistas norte-americanas como “os melhores amigos da raça negra”.
Em uma declaração dada ao historiador Joel Augustus Rogers, Garvey chegou a se autointitular como um pioneiro do fascismo: “Nós fomos os primeiros fascistas. Disciplinamos homens, mulheres e crianças e preparamo-los para a libertação da África. As massas negras viram que só neste nacionalismo extremo podiam depositar as suas esperanças e apoiaram-no de imediato. Mussolini copiou de mim o fascismo, mas os reacionários negros sabotaram-no”, afirmou o empresário.
Declínio e legado
A colaboração com os setores reacionários da sociedade e o anticomunismo exaltado de Garvey, no entanto, não impediram que ele se tornasse um alvo das autoridades norte-americanas. A crescente influência da UNIA alarmou a Casa Branca e o líder jamaicano passou a ser monitorado por J. Edgar Hoover, então um jovem funcionário dos órgãos de repressão.
Em 1923, já rotulado como um perigoso subversivo, Garvey foi condenado por fraude postal relacionada à venda de ações da Black Star Line. Para se defender, ele dizia que estava sendo vítima de uma conspiração de judeus e da sabotagem de “negros reacionários”. O empresário foi condenado a cinco anos de prisão e encarcerado na Penitência Federal de Atlanta. Em 1927, a sentença foi comutada e Garvey foi deportado para a Jamaica.
Garvey assistiu ao declínio de todos os seus projetos. O plano de enviar afro-americanos para colonizar a África não avançou além da intenção. O empresário enfrentou forte resistência da população negra dos Estados Unidos, que enxergava suas ideias como um reprodução das mais perniciosas ideologias raciais.
A noção de que cidadãos nascidos nos Estados Unidos deveriam “regressar” à África soava para muitos como um disparate. A pretensão de Garvey ao se autoproclamar “presidente da África” e a distribuição de títulos nobiliárquicos africanos imaginários aos seus seguidores também afetaram negativamente sua imagem.
Líderes políticos de Nigéria, Senegal, Etiópia e outros países africanos passaram a condenar abertamente as ideias de Garvey, denunciando-as como uma mera expressão do colonialismo. A negociação entre a UNIA e o governo da Libéria para promover a imigração de afro-americanos foi abandonada.
As ideias de Garvey também provocaram constantes atritos com importantes personalidades do movimento negro. O historiador Wilson Moses criticou duramente a “adulação acrítica” conferida a Garvey em alguns círculos do movimento negro dos Estados Unidos e condenava sua argumentação falaciosa, sua retórica divisionista e seu apelo ao colorismo. Por sua vez, o líder pan-africanista W.E.B. Du Bois considerava Garvey “o inimigo mais perigoso da raça negra na América e no mundo”.
Após seu retorno para a Jamaica, Garvey ainda tentou recriar a UNIA, mas não obteve sucesso. Ele se mudou para o Reino Unido em 1935 e permaneceu no exílio até sua morte, ocorrida em 10 de junho de 1940. Seus restos mortais foram repatriados para a Jamaica em 1964. Em 1969, o governo jamaicano lhe concedeu formalmente o título de herói nacional.
O post Marcus Garvey e o desvio reacionário do nacionalismo negro apareceu primeiro em Opera Mundi.
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