Economia

Jorge Messias barrado, e o mundo não se acabou

Assis Valente era baiano, negro, compositor e dentista de pobres no Rio dos anos 1930. Homem que conhecia o desastre de perto e sabia que o desastre, na maioria das vezes, passa. Em 1938, escreveu um  samba sobre o fim do mundo que não veio. Carmen Miranda gravou bonito, o país inteiro assimilou e cantou o fim sem fim, a lição da canção apocalíptica ficou suspensa no ar: a casa reza, o morro, junto com a cidade, para, cada um faz as pazes com Deus à sua maneira, e depois a vida volta exatamente como estava. O mundo continua de pé. Nem sempre isso é uma boa notícia.

Na semana passada, exatamente há uma semana, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. 42 votos contra, 34 a favor. Primeira derrota de um indicado ao STF desde 1894. Davi Alcolumbre presidiu a sessão com serenidade e cinismo. No final, decretou os 8 votos de diferença, o novo 7×1, com um de bônus.

O presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, durante encontro com prefeitos e prefeitas. <br> (Foto: Pedro Gontijo/Senado Federal)
O presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, durante encontro com prefeitos e prefeitas.
(Foto: Pedro Gontijo/Senado Federal)

A militância virtual entrou em colapso ainda durante a apuração. Nas redes, o tom era de quem finalmente viu o véu cair: Lula romperia com o Centrão, a era da concessão permanente havia acabado, o governo havia descoberto onde estava o chão. Mônica Bergamo, da Folha, anunciou, a esquerda panicada se descabelou. É um gênero literário com regras próprias. Toda derrota vira aurora. Todo recuo vira virada. O desespero dura até o café da manhã seguinte, quando o mundo amanhece igual e a militância precisa encontrar um novo drama para o mesmo impasse.

Passada a comoção, o mundo não se acabou.

O arranjo que sustenta o governo Lula continuou de pé, como continua toda semana, com pequenas variações de custo e nenhuma variação de lógica. Alcolumbre acumula poder com a paciência de quem sabe que o tempo trabalha para ele. O Centrão precifica apoio em função da demanda, e a demanda do Planalto é estrutural. O que a derrota de Messias revelou foi a forma atual de uma crise antiga: a negociação não tem fim à vista porque nenhum dos lados construiu uma saída do modelo que os prende juntos.

O presidencialismo de coalizão brasileiro sempre operou assim, agoniza mas não morre, como diz um outro samba conhecido, mas algo mudou e o episódio Messias reflete o jogo político com clareza incômoda. O Parlamento foi crescendo em poder real ao longo dos últimos anos, eleição após eleição, emenda após emenda, e o Executivo foi cedendo terreno no mesmo ritmo, às vezes de bom grado, às vezes sem perceber. Lula é o negociador mais experiente da política brasileira operando num tabuleiro que foi sendo redesenhado enquanto um jogo traiçoeiro acontecia. Esse deslocamento não se desfaz com uma declaração de ruptura dada às onze da noite para a militância acalmar.

Alcolumbre é um produto acabado do sistema que todo o sistema partidário conhece bem e ajudou a fundir. O Senado votou contra Messias. Cobrou o que entendia que podia cobrar, no momento em que entendeu que podia cobrar, e o fez com a frieza de quem não deve satisfação a ninguém. É duro de engolir, mas não há grande mistério nisso.

A conciliação permanente com um Congresso em expansão de poder vai estreitando o campo de manobra do Executivo até que sobre muito pouco para manobrar. Isso não depende de vontade política nem de coragem e destreza pessoal de Lula. É uma crise de arquitetura, e arquitetura não se reforma do dia para a noite. O modelo está esgotado, mas a morte desse tipo de arranjo é lenta. 

A militância que decretou virada na mesma noite da derrota tem uma relação peculiar com a realidade. Querer que Lula rompa com o Congresso é legítimo. Confundir esse desejo com uma leitura do que está acontecendo é outra coisa. O governo tem entregas reais, programas que funcionam, uma agenda social que existe de fato. Mas a base política que sustenta essas entregas opera por um custo crescente, e custo crescente sem teto à vista tem um destino previsível.

Assis Valente morreu em 1958, sozinho e esquecido, num hospital público do Rio. O samba que escreveu sobre o fim do mundo que não veio continuou sendo cantado depois que ele se foi. Há qualquer coisa de irônico nisso: o homem que sabia que o mundo não acaba ficou pelo caminho, e a canção sobreviveu. O mundo continua de pé, a batucada volta, e a conta do que ficou igual permanece aberta, sem data de vencimento.

Hoje, exatamente há uma semana do Apocalipse, Lula pediu para sua liderança reatar conversa com Alcolumbre. Tem uma eleição a enfrentar e o tabuleiro continua o mesmo. Infelizmente, Alcolumbre, e os outros que tais, serão atores da vitória ou da derrota. O samba da coalizão ainda não acabou.

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.

O post Jorge Messias barrado, e o mundo não se acabou apareceu primeiro em Opera Mundi.


Fonte:

{item_site}