O governo do presidente argentino Javier Milei firmou um acordo com a Quarta Frota do Comando Sul dos Estados Unidos, braço militar norte-americano na região, visando à ampliação da cooperação em segurança marítima nos próximos cinco anos. A iniciativa prevê a transferência de tecnologia, treinamento e a interferência direta de Washington contra eventuais “ameaças”.
O veículo argentino Página 12 destaca que a iniciativa considera o Mar Argentino, faixa marítima entre o Rio da Prata e a Ilha dos Estados, um “bem comum global”, integrando o Programa Global de Proteção dos Bens Comuns.
Segundo o embaixador norte-americano no país, Peter Lamelas, a medida faz parte de uma “aliança estratégica” entre os dois países destinada a defender “bens comuns globais” e reforçar a segurança da região.
Equipamentos especializados para vigilância marítima já foram entregues à Marinha argentina pelo Pentágono; e duas aeronaves Beechcraft King Air 360ER chegarão ao país até meados do próximo ano.
‘Subserviência aos EUA’
A reportagem traz as críticas e alertas de ex-ministros da Defesa e da Segurança sobre a iniciativa. O deputado Agustín Rossi, ex-ministro da Defesa durante os governos Cristina Kirchner e Alberto Fernández, destacou que, se fosse um acordo para patrulhar o Mar Argentino, ele teria de ser aprovado pelo Congresso Nacional.
Ele frisou que a iniciativa se insere no Escudo das Américas, do presidente norte-americano Donald Trump que, “sob o pretexto de combater o narcotráfico, formou uma coalizão militar com 17 nações”.

Daniel Torok / White House
Jorge Taiana, ministro da Defesa durante a gestão Fernández, classificou o acordo como “mais um exemplo da política externa de alinhamento automático e subserviente com os Estados Unidos”. Segundo ele, “entender a defesa do Atlântico Sul sob a lógica dos ‘bens comuns globais’ implica estender essa noção não apenas aos espaços marítimos, mas também à plataforma continental e à Zona Econômica Exclusiva da Argentina”.
Em sua avaliação, a medida relativiza “a dimensão soberana de um espaço fundamental para o país devido à riqueza de seus recursos renováveis e não renováveis”.
‘Coleta de informações’
Para Sabina Frederic, ex-ministra da Segurança, também durante o governo Fernández, “a zona econômica exclusiva no Mar Argentino não é um ativo global: é território soberano argentino. Portanto, os Estados Unidos não têm o direito de interferir na vigilância dessa área”.
Ela também alertou que não se trata apenas de cooperação técnica. “Os Estados Unidos fornecerão equipamentos e provavelmente reterão as informações coletadas pela Argentina.”
Frederic explicou que atualmente a Prefeitura Naval Argentina é responsável pelo monitoramento da zona econômica exclusiva, acrescentando que a iniciativa criará conflitos entre o órgão e a Marinha.
Sobre a alegação das autoridades de que um dos objetivos da medida é limitar a presença chinesa na região, Frederic afirmou que “não há apenas navios chineses na área; há também navios espanhóis e portugueses”.
Ao comentar a medida, Ernesto Alonso, fundador do CECIM (Centro de Ex-Combatentes das Ilhas Malvinas), afirmou que o governo Milei está “implementando um programa de austeridade brutal para as Forças Armadas” do país.
Em sua avaliação, “assim como houve um plano sistemático para fazer pessoas desaparecerem durante a ditadura, hoje existe um plano sistemático para entregá-las”.
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