Economia

Aumento dos gastos militares acirra dependência dos países periféricos

No ano de 2025, os gastos militares globais chegaram a 2,88 trilhões de dólares, o maior patamar da série histórica registrada pelo SIPRI, o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo. Desde 2016, o gasto militar global cresceu 41%, enquanto, nos últimos anos, crises militares e de segurança vêm influenciando discursos de autoridades e projetos nacionais. 

O acirramento de rivalidades geopolíticas, a irrupção de conflitos e a ameaça de obsolescência militar compõem o arsenal retórico das elites tecnomilitares para justificar o aumento dos gastos em defesa. Mas há um movimento mais profundo em curso: além das zonas de conflito direto, os Estados vêm se estruturando a partir de impulsos militaristas. Sob a justificativa da promoção de segurança e de autonomia, avança a busca pela revitalização de indústrias militares, construindo junto às suas populações um consenso de que não há outro caminho.

O presidente de Ruanda, Paul Kagame, em visita a fábrica de armas na Etiópia.
(Foto: Paul Kagame / Flickr)

Cinco países representam 58% dos gastos militares globais, com alguma variação anual no ranking. Os Estados Unidos seguem imbatíveis na primeira posição (33%), seguidos por China (12%) e Rússia (6,6%). A Alemanha vem reconstituindo-se como potência militar e alcançou o quarto lugar no ranking (4%), seguindo à frente da Índia, que subiu para o quinto lugar (3,2% dos gastos globais), enquanto combina rivalidades com a China e grandes iniciativas em tecnologia. 

No top 10, os maiores aumentos em gasto militar foram realizados pela Alemanha (+24%), Ucrânia (+20%), Japão (+9,7%) e China (+7,4%). Os EUA, que aumentaram para 42% sua concentração das exportações de armamentos no mundo, já anunciaram o plano de dedicar 1,5 trilhões de dólares para a defesa em 2027.

Segundo o SIPRI, o aumento nos gastos em 2025 foi impulsionado não só pela continuidade da guerra na Ucrânia, que segue influenciando os gastos e o comércio de armamentos da Rússia (+6% no gasto militar) e da Ucrânia. Mas o fator Otan, que reestabeleceu suas metas, e o rearmamento da Europa, se apresentam como os novos motores do aumento de gastos militares.

Na Cúpula da OTAN de 2025, pressionados pelos EUA, os membros elevaram a meta de gastos militares de 2% para 5% do PIB até 2035. Além da Alemanha, o caso da Polônia é emblemático: o país aumentou seus gastos em 23% e tornou-se um dos principais importadores de armamentos do mundo (852% de aumento de importações entre 2021-25 em comparação com 2016-20). Os mais recentes membros da Otan, Finlândia (+17%) e Suécia (+9,4%), também empurraram o aumento do gasto militar global.

Merecem destaque outros países da UE, em especial Bélgica (+59%), Espanha (+50%) e Dinamarca (+46%), ainda que os maiores gastos totais, exceto pela Alemanha, sejam da França (68 bilhões de dólares) e Itália (48 bilhões de dólares). O bloco da Otan representou sozinho 55% de todo gasto militar global. As importações de armas por países europeus mais do que triplicaram (+210%) entre 2021-25 e 2016-20.  

Já o Brasil representa o maior gasto militar da América Latina, concedendo um aumento de 13% ao setor militar em 2025. Naquele ano, um montante de 30 bilhões de reais foi autorizado para a Defesa por fora do arcabouço fiscal do país. Em 2026, as Forças Armadas apresentaram ao governo federal uma nova proposta de investimentos de R$800 bilhões no setor. A flagrante instabilidade na região latina e o sequestro de Maduro foram aspectos mencionados pelo ex-ministro Celso Amorim ao defender a meta de 2% do PIB em gastos militares. Se busca apresentar um caminho para a soberania nacional sem que se associem as causas do ambiente de imprevisibilidade e as origens dos principais componentes dos equipamentos militares.

O contexto global belicista motivou um estudo do FMI sobre os efeitos econômicos do gasto militar – um debate clássico que trata das escolhas entre gastos militares e sociais, especialmente relevante em um mundo de políticas de austeridade e militarização. Ao analisar como esses gastos se transmitem à economia, o estudo aponta que os efeitos dependem de como o dinheiro é gasto, financiado e distribuído. 

Se, para alguns países, o aumento da despesa militar pode dinamizar cadeias produtivas, o financiamento via dívida pública tende a comprimir o investimento privado no médio prazo, e o choque de demanda pode gerar gargalos, pressionar preços e provocar escassez de insumos. 

As conclusões do estudo são particularmente sensíveis para países subdesenvolvidos e dependentes. O aumento dos gastos militares tende a deteriorar as contas públicas, ampliando déficits. Mais importante, geralmente ocorre às custas de investimentos sociais como saúde e educação, em um contexto de disputa por recursos restringidos. 

Os gastos militares possuem efeitos multiplicadores. Esse é um argumento central do complexo militar-industrial para defender sua expansão com base na geração de empregos, ganhos de produtividade e aquecimento econômico. Mas as condições estruturais variam muito entre os países, e esses efeitos estão longe de ser universais.

A absoluta discrepância entre as capacidades produtivas de cada país tende a promover, no médio prazo, desequilíbrio da balança externa para os países importadores, limitando ainda mais os possíveis ganhos de um projeto nacional pautado em uma modernização militar acrítica. Nesses contextos, a soberania é o argumento, mas o resultado é o reforço das condições de dependência. 

O estudo do FMI apresenta como a produção na indústria de defesa é globalmente fragmentada, com os setores de maior valor agregado concentrados no Norte Global. No ímpeto de modernização, para as economias periféricas, o estímulo econômico interno – na forma de gasto militar – é significativamente exportado. 

A conclusão é pouco surpreendente: quando países ricos aumentam seus gastos militares, onde as cadeias tecnológicas são integradas, outros países ricos também se beneficiam. Já nas economias classificadas como “emergentes” (em contraposição às “economias avançadas”), não há evidências de transbordamento do gasto militar para a economia civil, sendo que estes países exercem uma posição subordinada.

Dessa maneira, enquanto potências militares e econômicas têm mais condições de promover algum ganho econômico com o aumento dos gastos militares, além de reforçar sua liderança tecnológica, fortalecer estruturas produtivas e exportar armamentos, os países periféricos tendem a ampliar suas importações e enfrentar maior pressão fiscal. Nesse paradoxo, países periféricos financiam com austeridade doméstica a prosperidade industrial de quem os arma. 

Para o Norte Global, ainda que se possa extrair os ganhos econômicos, a questão não se encerra no balanço fiscal. Todo projeto industrial-tecnológico é um projeto político, e a normalização do militarismo como motor econômico na Europa tende a agravar convulsões sociais, de populações impactadas por uma priorização institucional alheia às suas necessidades. 

(*) Marianna Deus Deu é socióloga, Mestre em Desenvolvimento Econômico e Doutora em Relações Internacionais. Interesse especial em temas de guerra e tecnologias.

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