Não deveria surpreender ninguém que os Estados Unidos tenham mais uma vez articulado uma aliança com o pior da direita latino-americana para defender interesses econômicos e geopolíticos na região. O Honduragate confirma um padrão que, embora liderado por figuras do Partido Republicano, corresponde a objetivos que transcendem qualquer linha partidária.
O ponto de partida mais revelador é o indulto de Trump a Juan Orlando Hernández (JOH), ex-presidente de Honduras e narcotraficante condenado por um tribunal federal norte-americano por colaboração com o Cartel de Sinaloa. A credibilidade da Casa Branca no enfrentamento de uma crise de opioides que mata mais de 80 mil norte-americanos por ano é, no mínimo, questionável diante da libertação de JOH – que, como os áudios agora revelam, tinha uma missão muito mais urgente a cumprir do que qualquer esforço antidrogas. Essa missão era coordenar uma operação de comunicação política financiada por interesses norte-americanos, contratando consultores e lobistas para interferir nos processos eleitorais do México e da Colômbia. Entre eles, Roger Stone – operador histórico da direita norte-americana, condenado por mentir ao Congresso e por obstrução da justiça no âmbito da investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016, posteriormente perdoado pelo próprio Trump, e notoriamente conectado a interesses empresariais para os quais atua extensivamente como lobista. A pergunta que surge, e que permanece sem resposta, é a mais simples de todas: quem contratou Roger Stone para fazer lobby pela libertação de JOH?

(Foto: Molly Riley / White House)
O esforço de reconfiguração política do continente em direção à direita não é novidade, mas está em franca ascendência após um ciclo marcado por derrotas eleitorais da esquerda no Equador, no Panamá e no Chile, e pela deposição de Nicolás Maduro – o único líder da região cuja remoção do poder só foi possível mediante ação militar direta.
O projeto é liderado pelo Partido Republicano, mas os interesses econômicos e geopolíticos que o sustentam revelam uma agenda mais ampla e bipartidária: garantir governos submissos, conter a presença comercial e econômica chinesa e assegurar acesso unilateral a minerais de terras-raras. Os áudios vazados de JOH ilustram essa lógica com precisão no contexto hondurenho. JOH, oriundo do Partido Nacional – o mesmo que protagonizou o golpe de Estado contra Manuel Zelaya em 2009 – fala nos áudios da eliminação de zonas econômicas especiais que beneficiam populações locais, da construção de um corredor ferroviário transcontinental via contrato com a General Electric e da instalação de uma base militar norte-americana em Roatán. Essencialmente configuram a convergência de interesses económicos e geopolíticos: por um lado garantir condições de exploração da força de trabalho e do saqueio dos recursos, por outro militarizar o continente, instalando um mecanismo de coerção contra nossas soberanias.
O pano de fundo é a preocupação com a crescente presença da China no continente, cujo comércio com a América Latina e o Caribe cresceu de cerca de 12 bilhões para mais de 450 bilhões de dólares nas últimas duas décadas.
Esse avanço chinês explica parcialmente a postura da administração Trump em relação ao México num periodo de renegociação do Acordo Estados Unidos México Canadá (T-MEC pelas suas siglas em espanhol). Durante esta renegociação, a agenda estadunidense busca limitar os insumos chineses nas cadeias produtivas norte-americanas. Também por meio de uma cláusula de contenção, proíbe México e Canadá de celebrarem acordos de livre comércio com “economias não de mercado” – colidindo diretamente com a estratégia mexicana de atrair investimentos industriais chineses no marco do Plan México de desenvolvimento econômico.
Assim, as ameaças de ataques com drones em território nacional mexicano e as recentes acusações contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, fazem parte de uma sequência de ataques políticos que pretendem debilitar um governo de esquerda que porta um projeto nacional que defende sua soberania. Tanto a presidenta Claudia Sheinbaum Pardo como o partido Morena têm denunciado publicamente a campanha de desinformação e perseguição judicial como um ataque político coordenado a partir de Washington em articulação com a direita mexicana.
A mesma lógica de pressão coercitiva se aplica à Colômbia, embora com resultados que merecem atenção. Após meses de um esforço do governo estadunidense de cercar e sabotar o governo Petro, o país aderiu à Iniciativa do Cinturão e Rota em maio de 2025. Em fevereiro de 2026 houve uma aproximação entre Washington e Colômbia, com a visita de Gustavo Petro aos Estados Unidos, visita esta que foi marcada pelo clima de tensão criado pelo sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores. É nesse contexto que a Colômbia se prepara para o primeiro turno de sua eleição presidencial em 31 de maio, com Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico apoiado por Petro, liderando as pesquisas, com mais de 44% das intenções de voto, frente a uma direita fragmentada. Washington, que já endossou Milei e Asfury, certamente não assiste passivamente a essa corrida.
Some-se a isso a disputa pelas terras-raras. A América Latina concentra algumas das reservas estratégicas mais significativas do planeta: lítio no triângulo formado por Argentina, Chile e Bolívia; nióbio e elementos de terras-raras no Brasil; depósitos relevantes no México e no Peru. Para Washington, garantir acesso privilegiado a esses recursos é tanto uma prioridade econômica quanto um imperativo geopolítico na campanha de conter a China e eliminar qualquer possibilidade de multipolaridade. O governo Lula tem reagido com uma política de soberania mineral em construção: instalou o Conselho Nacional de Política Mineral, aprovou na Câmara o marco regulatório para minerais críticos e estratégicos e avança com a proposta de criação da Terrabras, uma estatal voltada à exploração de terras-raras. O alerta foi reforçado pela aquisição recente da Serra Verde, a única mineradora de terras-raras em operação no Brasil, pela empresa norte-americana USA Rare Earth, operação que elevou a preocupação dentro do governo brasileiro sobre os limites reais do controle nacional sobre esses ativos.
O que está em curso é uma campanha de pressão máxima, com instrumentos econômicos, militares (veja o Escudo das Américas) e políticos contra os governos de esquerda da região. Cuba, Venezuela, México e Colômbia já estão na mira, por vias distintas mas articuladas. Quanto ao Brasil, à medida que Lula consolide relações com a China, avance uma política externa soberana, ou assuma uma política de integração regional mais ambiciosa, as condições para uma interferência norte-americana de maior escala só se aprofundam. A questão é apenas em que forma essa interferência se concretizará.
Enquanto isso, a direita regional opera com financiamento farto, coordenação estratégica e o respaldo aberto do Império. O mesmo consultor político que trabalhou para Trump, Bukele, Milei e Asfury também esteve presente nas manifestações brasileiras de 2022 que contestaram a eleição de Lula – um lembrete de que essa rede opera de forma contínua e transnacional. A evidência de coordenação e colaboração que o caso Honduragate oferece só revela o que já sabemos bem: nossos países são permanentemente vulnerados pela intervenção estadunidense que opera junto com as elites nacionais dos nossos países. A questão não é se os Estados Unidos buscarão influenciar a eleição presidencial brasileira, senão como.
(*) Stephanie Weatherbee Brito é coordenadora da Secretaria Internacional da Assembléia Internacional dos Povos
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