Economia

Garry Kasparov, de ícone do xadrez a apoiador do Departamento de Estado

Após se aposentar do universo do xadrez, Garry Kasparov encontrou uma nova vocação: promover os objetivos da política externa dos Estados Unidos. A partir de suas posições belicistas em relação à política externa, incluindo o apoio às invasões americanas e ao uso de armas nucleares contra seus inimigos, sua defesa veemente do genocídio israelense e sua crença bizarra de que a Idade Média nunca existiu, o MintPress examina a trajetória profissional do ex-campeão mundial de xadrez que se tornou o principal bajulador do Departamento de Estado dos EUA.

Definições duvidosas de democracia

Garry Kasparov tornou-se uma estrela da indústria ocidental dos direitos humanos. Além de aparecer regularmente na imprensa e nos noticiários, o ex-astro do xadrez é fundador e presidente da Renew Democracy Initiative (RDI), vice-presidente do World Liberty Congress e ex-presidente da Human Rights Foundation (HRF), três organizações de direitos humanos sediadas nos Estados Unidos.

Juntas, essas organizações afirmam lutar por um mundo melhor, livre do autoritarismo e dos prisioneiros políticos. No entanto, uma análise mais detalhada revela que elas estão profundamente envolvidas com a agenda do Departamento de Estado norte-americano.

A RDI descreve sua missão como “desmascarar e confrontar a aliança de ditadores que ameaçam a liberdade em todo o mundo”.

“Ao fazer isso”, afirmam, “inspiramos aqueles nos Estados Unidos e em outros países livres a valorizar e proteger suas próprias democracias”.

No entanto, seu conselho de administração parece mais uma empresa de armas ou um think tank neoconservador do que um grupo de direitos humanos. Ao lado de Kasparov estão vários líderes militares americanos, incluindo:

General Mark Miley, ex-presidente do Estado-Maior Conjunto e chefe do Estado-Maior do Exército;

General Stanley A. McChrystal, ex-comandante do Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC), líder das forças americanas no Afeganistão e no Iraque;

Tenente-general Ben Hodges, ex-comandante geral do Exército dos EUA na Europa e atual mentor sênior de logística da OTAN;

Tenente-coronel Alexander Vindman, ex-diretor de Assuntos Europeus do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

Além dos líderes militares, também estão presentes figuras importantes do governo dos EUA, incluindo a vice-presidente do RDI, Linda Chavez, que foi diretora de Relações Públicas do presidente Ronald Reagan e secretária do Trabalho do presidente George W. Bush.

Embora a RDI se expresse através de uma linguagem que insinua promover a democracia, os países em que a organização parece particularmente focada, como a China, a Rússia, Cuba e a Nicarágua, estão diretamente alinhados com as ambições estratégicas dos EUA. Em 2019, a primeira conferência da RDI, intitulada “Reawakening the Spirit of Democracy” (Despertando o Espírito da Democracia), teve como destaques figuras neoconservadoras como Bill Kristol, Max Boot, Dana White, Bret Stephens, Anne Applebaum e Paul Wolfowitz.

Kasparov também é vice-presidente do World Liberty Congress, uma organização que se descreve como “o maior movimento de ativistas políticos orientado para a ação do mundo”, trabalhando em conjunto para derrubar governos autoritários em todo o planeta. Os governos especificamente mencionados incluem Rússia, Venezuela, Irã e China.

O Congresso Mundial da Liberdade é financiado pela Fundação Nacional para a Democracia (NED), um grupo de fachada criado pela CIA para realizar muitos dos projetos mais controversos da organização. “Seria terrível para os grupos democráticos em todo o mundo serem vistos como subsidiados pela CIA”, disse o presidente fundador da NED, Carl Gershman, explicando sua criação. “Muito do que fazemos hoje foi feito secretamente há 25 anos pela CIA”, disse o cofundador da organização, Allen Weinstein, ao The Washington Post.

Os projetos recentes da NED incluíram financiamento e treinamento de forças venezuelanas de extrema direita que tentam derrubar o governo de Nicolás Maduro, fomento de manifestações antigovernamentais no Irã e canalização de dinheiro para os líderes do movimento de protesto de Hong Kong de 2019.

O conselho executivo do Congresso Mundial da Liberdade é um “quem é quem” desses projetos de mudança de regime. O secretário-geral da organização, Leopoldo López, foi um líder em um golpe patrocinado pela NED em 2002 que depôs brevemente do poder o antecessor do presidente Maduro, Hugo Chávez. Doze anos depois, ele liderou uma onda de violência política na Venezuela em 2014 que matou pelo menos 43 pessoas e causou cerca de 15 bilhões de dólares em danos materiais. Figura importante da extrema direita venezuelana, López disse a jornalistas que quer que os Estados Unidos governem formalmente seu país após a derrubada de Maduro. Ele foi condenado por terrorismo e sentenciado a 13 anos de prisão. Mais tarde, ele escapou e fugiu para a Espanha.

Juntando-se a López no conselho do World Liberty Congress está a presidente da organização, Masih Alinejad. Alinejad é apresentadora da Voice of America Persian News Network, um canal financiado pelo governo dos Estados Unidos descrito pelo New York Times como parted de “uma rede mundial de propaganda construída pela CIA”.

Em 2022, as especulações de Alinejad sobre a morte da ativista iraniana Mahsa Amini ajudaram a desencadear protestos em todo o país onde ela nasceu – protestos que o governo dos EUA tentou transformar em um esforço para mudar o regime.

Dados do site de rastreamento GovTribe revelam que Alinejad recebeu mais de 834 mil dólares em contratos federais do governo dos EUA. Após uma aparente tentativa de assassinato, ela passou a morar em um prédio do FBI na cidade de Nova York.

Também faz parte do conselho do World Liberty Congress Joey Siu, uma das líderes dos protestos de 2019 em Hong Kong. Após não conseguir derrubar o governo de seu país natal, Siu fugiu para os Estados Unidos, onde recebeu um emprego no National Democratic Institute, uma organização semigovernamental financiada em grande parte pela NED. Ela também é Freedom Fellow na Human Rights Foundation.

Até o ano passado, Kasparov também era presidente da HRF, uma organização semelhante com sede no Empire State Building, em Nova York, fundada e dirigida pelo ativista venezuelano Thor Halvorssen. Halvorssen – primo e confidente próximo de Leopoldo López – é filho de um ex-funcionário do governo venezuelano amplamente acusado de ser informante da CIA e traficante de armas para as guerras sujas da agência na América Central na década de 1980.

Assim como as outras duas organizações “pró-democracia”, a Human Rights Foundation exalta as virtudes do sistema americano, condena nações oficialmente inimigas, como Venezuela, Rússia e China, e trabalha em estreita colaboração com ativistas famosos apoiados pelos EUA, como Yeonmi Park e Enes Kanter. Kasparov deixou o cargo de presidente da HRF em 2024 e foi substituído por Yulia Navalnaya, viúva do político russo apoiado pelos EUA Alexey Navalny.

O teste decisivo de Gaza

Juntas, essas três organizações se apresentam como líderes morais no cenário mundial, liderando uma cruzada pela liberdade, justiça e direitos humanos em todos os lugares. Sua resposta à crise de Gaza, no entanto, tem sido notável.

Organizações influentes em todo o mundo, incluindo as Nações Unidas, a Anistia Internacional, a Human Rights Watch e a Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, afirmaram que as ações de Israel constituem, sem dúvida, um genocídio. Esta conclusão é partilhada por muitos dentro de Israel, incluindo o principal grupo de direitos humanos do país, B’Tselem, e o general reformado e vice-chefe da Mossad, Amiram Levin.

Como se trata da questão de direitos humanos mais proeminente de nosso tempo – em que o caso é tão claro –, é óbvio qual posição uma instituição minimamente credível deve tomar. No entanto, as ações de Israel têm sido totalmente apoiadas pelo governo dos Estados Unidos, que vê a região como crucial para seus objetivos geopolíticos. Gaza, portanto, torna-se um ensaio útil para determinar quais são as verdadeiras prioridades das organizações.

A totalidade da declaração do World Liberty Congress sobre Israel/Palestina consiste em um comunicado padrão de seis frases que vagamente apela à paz, divulgado seis meses após o ataque de 7 de outubro.

A Human Rights Foundation, por sua vez, condenou as ações do Hamas, espalhou falsidades sobre o Hamas usar civis como escudos humanos e apenas advertiu Israel para que protegesse vidas civis enquanto “persegue alvos legítimos do Hamas”. Além disso, ela deu espaço ao analista palestino-americano Ahmed Fouad Alkhatib, funcionário do think tank da OTAN, o Atlantic Council, que a MintPress News apresentou em um artigo intitulado “Conheça os palestinos pagos para promover o genocídio de Israel”.

A Renew Democracy Initiative, no entanto, assumiu a postura mais linha-dura de todas, oferecendo nada além de apoio total a Israel e denúncias a qualquer grupo que não apoiasse suficientemente suas ações.

A RDI exigiu que o Hamas depusesse as armas e se rendesse, alegando que a barreira para a paz na região era o próprio grupo palestino. Também atacou ativistas pró-Palestina no Ocidente, sugerindo que o aumento do sentimento negativo em relação a Israel é em grande parte o resultado de uma conspiração estrangeira para manipular o público. Como publicou o instituto:

“Poucas horas após o ataque, a Rússia, a China e o Irã começaram a plantar as sementes para uma campanha coordenada de desinformação, criando contas em redes online para professar apoio ao Hamas e aprofundar as divisões no mundo democrático. Enquanto isso, manifestações condenando Israel lotaram as ruas de sociedades abertas antes mesmo que Israel tivesse a chance de organizar uma resposta.”

O próprio Kasparov descreveu Israel como uma “democracia de linha de frente” que não está “lutando apenas por si mesma”, mas para manter as armas nucleares fora das mãos de nações antidemocráticas. As recentes “conquistas” de Israel no Oriente Médio, observou ele, têm sido “impressionantes”. Infelizmente, afirmou ele, a vitória já poderia ter sido garantida se as forças do bem não tivessem que “lutar com uma mão atrás das costas”. O grande mestre do xadrez de 62 anos denunciou as Nações Unidas como uma instituição falida que foi sequestrada por regimes autoritários como China, Rússia e Irã, que “fomentaram um purgatório de falsas equivalências” e viraram o mundo contra Israel.

Ele também condenou veementemente o Tribunal Penal Internacional por emitir um mandado de prisão contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, declarando que a medida era uma “vergonha” e “o último prego no caixão da ordem internacional”. “Politizar e criminalizar a autodefesa contra o terrorismo também desacredita julgamentos anteriores contra verdadeiros criminosos de guerra, como [o presidente russo Vladimir] Putin”, explicou.

Pretensões políticas

Kasparov nasceu no Azerbaijão soviético em 1963. Ele veio de uma família politicamente conservadora; seus pais deram-lhe o nome do presidente americano Harry Truman (Garry), impressionados com suas fortes posições anticomunistas e sua decisão de invadir a Coreia. O bombardeio americano da península matou cerca de ¼ da população norte-coreana. (Kasparov, no entanto, descreve as ações dos EUA como tendo “salvado milhões de coreanos”.)

Ele usou sua formação soviética para atacar qualquer ator que propusesse até mesmo as mais modestas reformas de esquerda nos Estados Unidos, incluindo Bernie Sanders. “Ei, Bernie, não me dê lições sobre socialismo. Eu vivi isso”, escreveu ele, em refutação às ideias do senador sobre o sistema de saúde Medicare para todos e a tributação dos ricos.

Durante a década de 1990, Kasparov apoiou o governo de Boris Yeltsin, um autocrata que chegou ao poder graças a uma campanha massiva de interferência e desinformação organizada pelo governo dos EUA. Um opositor ferrenho de Putin, em 2005 Kasparov trocou o xadrez pela política, tentando se tornar presidente da Rússia, liderando a coalizão Outra Rússia. Embora tenha recebido cobertura significativa da mídia ocidental, o movimento não conseguiu ganhar força dentro da Rússia, em parte devido à significativa resistência e repressão oficial que recebeu. Seus oponentes políticos também apontam ao fato de que ele costuma se comunicar em inglês, em vez de russo, como um fator explicativo. Desistindo de suas ambições políticas domésticas, ele se mudou para Nova York em 2013.

Quase imediatamente, ele se tornou uma figura proeminente no circuito da mídia. Ele criticou publicamente o presidente Obama por “negociar com um ditador” (Putin) durante a crise da Ucrânia em 2014 e foi um dos primeiros defensores da conspiração RussiaGate. Mesmo antes das eleições de 2016, ele alertou que o Kremlin invadiria os sistemas eleitorais americanos para garantir a vitória de Trump. “Putin tem uma oportunidade única, nunca antes imaginada por nenhum chefe da KGB ou do Politburo, de influenciar os resultados dessas eleições. E acho que [ele] vai usar todas as oportunidades que lhe forem dadas a partir da invasão”, disse ele, acrescentando: “Receio que isso seja apenas o começo”.

Kasparov tem sido um dos críticos mais veementes do presidente Trump, insinuando regularmente que Trump e Putin compartilham um vínculo especial. Em 2018, quando os dois decidiram se encontrar para conversas decisivas sobre a Ucrânia, Kasparov ficou revoltado. “Estou pronto para chamar isso de o momento mais sombrio da história da presidência americana. Me avisem se conseguirem pensar em alguma competição”, afirmou ele no Twitter, levando a mais de 2.800 comentários sugerindo outros momentos da história dos EUA.

Em contraste com sua posição sobre Gaza, Kasparov estava imediatamente pronto para rotular a invasão russa da Ucrânia como um genocídio. “Estamos testemunhando, literalmente assistindo ao vivo, Putin cometer genocídio em escala industrial na Ucrânia”, escreveu, apenas uma semana após a invasão.

Ele também pediu uma resposta imediata da OTAN, exigindo que a OTAN bombardeasse e sancionasse sua terra natal “de volta à Idade da Pedra”. “Espero que os americanos revisem sua estratégia e mostrem sua força”, disse ele, criticando o presidente Biden por sua falta de coragem. Kasparov previu a destruição do país que tentou liderar apenas 14 anos antes, afirmando: “Não acho que a guerra vá além do próximo verão por uma razão simples: a Ucrânia vai vencer. E após essa vitória, a economia russa entrará em colapso”.

Mas não é apenas com a Rússia que Kasparov sonha com a guerra. O astro do xadrez também sugeriu que o Ocidente ataque a China. Ele chegou a publicar um artigo no Politico, explicando que “a era dos dividendos da paz acabou. Uma nova era deve começar – uma era em que a Europa se defenda a si mesma e a seus aliados”. “Não haverá coexistência pacífica com a Rússia de Putin… tal coexistência com a China de Xi também é impossível”, declarou ele, afirmando que a Europa deve “se transformar de uma comunidade pacífica” em um continente “capaz de responder a ameaças de violência real, capaz de se manter firme contra aqueles que desejam sua destruição”.

Operação de mudança de regime

Dada a sua defesa de uma potencial Terceira Guerra Mundial contra a Rússia e a China, talvez não seja surpreendente que Kasparov tenha apoiado entusiasticamente a invasão do Iraque pelos EUA. De fato, o apoio às guerras americanas tem sido uma das poucas constantes na sua vida tumultuada. Em 2002, previu com confiança uma vitória rápida e decisiva no Iraque e afirmou que esta deveria ser usada como trampolim para invadir uma série de nações. “A ofensiva vem primeiro. Bagdá continua sendo a próxima parada, mas não a última. Também devemos ter planos para Teerã e Damasco, sem mencionar Riade”, escreveu ele nas páginas do The Wall Street Journal. Uma vez derrotado o Iraque, previu ele, “a pressão será forte para então declarar a guerra vencida e a fase ofensiva encerrada. Isso seria desastroso”. Em vez disso, ele desejava prosseguir com uma campanha global de guerra para garantir a hegemonia dos EUA – uma posição semelhante à da facção mais belicista dos pensadores neoconservadores em Washington, D.C. Ele também apoiou a primeira invasão do Iraque em 1991, pedindo que os Estados Unidos lançassem uma bomba atômica sobre Bagdá.

Quanto ao vizinho do Iraque, o Irã, Kasparov apoiou a mudança de regime com ações e palavras. Em 2021, ele participou da Conferência Irã Livre, onde afirmou que o governo iraniano “não tem autoridade do povo. Em vez disso, ele teme seu povo, o oprime e tortura”. A Conferência Irã Livre está intimamente associada ao Mujahedeen-e-Khalq (MEK), um grupo radical conhecido por ter realizado ataques terroristas dentro do Irã. Até 2012, o MEK era oficialmente designado como um grupo terrorista pelo governo dos Estados Unidos e ainda é considerado como tal em grande parte do mundo.

Kasparov também é acusado de ter participado de uma recente tentativa de golpe de Estado no Sudão do Sul. O grande mestre do xadrez é acusado de ter facilitado a venda e o contrabando de milhões de dólares em armas, incluindo rifles, lançadores de granadas e sistemas de mísseis, para o “ativista pela paz” sul-sudanês Peter Ajak.

Ajak tem uma relação próxima com Kasparov. Ele é membro sênior da Renew Democracy Initiative e faz parte do conselho de liderança do World Liberty Congress. Ele também é membro do Reagan-Fascell Democracy Fellow no National Endowment for Democracy. Apesar dessas credenciais, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos o acusou de três crimes relacionados à tentativa de contrabando de armas e à tentativa de derrubar o governo do Sudão do Sul.

Kasparov é amplamente conhecido por ter apresentado Ajak ao executivo de Wall Street Robert Granieri, que supostamente financiou a operação. Kasparov certamente tem laços íntimos com Granieri, que doou pelo menos um milhão de dólares à Renew Democracy Initiative. Mas tanto Granieri quanto Kasparov negaram veementemente qualquer irregularidade.

A conexão com Peter Thiel

Outro oligarca americano com um histórico moral questionável que financia a carreira de Kasparov é Peter Thiel. A empresa de Thiel, Palantir, está ajudando os militares israelenses a atacar palestinos em Gaza, fornecendo a inteligência para um massacre altamente tecnológico. Os softwares da Palantir também são usados pelo FBI, ICE e outras agências policiais dos EUA para minar a privacidade e atacar denunciantes.

Thiel tem uma linha direta com a Casa Branca por meio do vice-presidente J.D. Vance. Ele conheceu Vance quando este ainda estava na faculdade, oferecendo-lhe seu primeiro emprego, financiando sua empresa de capital de risco e bancando sua candidatura ao Senado.

Thiel também financiou as ambições de Kasparov, doando mais de meio milhão de dólares para a HRF entre 2007 e 2011. Os dois têm uma amizade pessoal próxima. Kasparov foi o primeiro palestrante principal do Palantir Night Live, uma série de eventos dedicados a explorar questões de ponta no mundo da tecnologia.

Em 2012, eles apareceram juntos na Oxford Union como parceiros de debate e escreveram um artigo no The Financial Times sobre a necessidade de acelerar o ritmo do desenvolvimento tecnológico.

Quatro anos depois, eles se reuniram novamente, desta vez no think tank conservador Hudson Institute, para um evento promovendo o livro de Kasparov, “Winter is Coming: Why Putin and Enemies of the Free World Must be Stopped” (O inverno está chegando: por que Putin e os inimigos do mundo livre devem ser detidos).

Para saber mais sobre o bilionário alemão do setor de tecnologia, leia a investigação da MintPress, “Peter Thiel: From Gaza AI War Criminal To White House Puppet Master” (Peter Thiel: de criminoso de guerra de IA em Gaza a manipulador da Casa Branca).

Teórico da conspiração

Kasparov é frequentemente apresentado como um especialista em desinformação. Nas páginas do The New York Times, ele denunciou o “ataque de desinformação” ao qual os americanos estão expostos. Na União Soviética, era o governo que espalhava mentiras, afirma ele, mas, graças ao poder da internet, qualquer pessoa pode “se tornar um ministro da propaganda no conforto de sua casa”. Atores estrangeiros hostis, como sua terra natal, a Rússia, acrescenta ele, estão fomentando o tribalismo político e as teorias da conspiração em todo o Ocidente.

No entanto, apesar dessa posição auto-proclamada, Kasparov tem sido propenso a promover várias teorias da conspiração. Em 2017, por exemplo, ele sugeriu que o atentado ao metrô de São Petersburgo foi um ataque de bandeira falsa do governo russo, “perfeitamente sincronizado para servir à agenda política de Putin”.

Certamente, a teoria da conspiração mais bizarra que ele defende, porém, é a da Nova Cronologia. Os adeptos da Nova Cronologia afirmam que a Idade Média é uma conspiração e não aconteceu, que Jesus viveu no século 12, que as civilizações da Grécia e Roma antigas terminaram há apenas algumas centenas de anos e que as nações ocidentais conspiraram para esconder a verdadeira história do mundo, que na verdade é centrada em torno de um poderoso império global chamado Horda Russa.

Uma ideia altamente obscura, a Nova Cronologia é conhecida principalmente porque Kasparov passou décadas promovendo-a para seus fãs perplexos. O grande mestre do xadrez teve contato com a ideia pela primeira vez na década de 1990. Como ele escreveu:

“Encontrei vários livros escritos por dois matemáticos da Universidade Estadual de Moscou… Usando métodos matemáticos e estatísticos modernos, bem como cálculos astronômicos precisos, eles descobriram que a história antiga foi artificialmente prolongada por mais de 1.000 anos. Por razões que vão além da minha compreensão, os historiadores ainda ignoram o trabalho deles.”

Suas tentativas de popularizar a teoria encontraram uma reação negativa quase universal. No entanto, tendo ampla oportunidade de se distanciar da pseudociência, ele se recusou a fazê-lo. Quando perguntado diretamente em um “Ask Me Anything” (Pergunte-me qualquer coisa) da rede social Reddit em 2021 se ele ainda acredita na Nova Cronologia, ele respondeu:

“Acredito em questionar tudo e nas evidências, e concordo com algumas das críticas da Nova Cronologia sobre a fragilidade das evidências em algumas áreas da cronologia padrão das civilizações antigas e da Idade Média, que muitas vezes se baseiam em um único relato ou objeto contestado.”

A história pertence ao presente, por isso devemos questionar, concluiu.

São esses tipos de crenças bizarras que lhe renderam comparações com outro controverso grande mestre do xadrez: Bobby Fischer. Após sua famosa vitória no Campeonato Mundial de Xadrez de 1972, Fischer sofreu um declínio mental significativo, tornando-se recluso e desenvolvendo tendências paranóicas. Depois de ler o livro “The Secret World Government” (O Governo Mundial Secreto), ele começou a acreditar que todos os infortúnios que lhe aconteceram eram resultado de uma conspiração judaica internacional, apesar de ele próprio ser judeu.

As visões e explosões cada vez mais antissemitas de Fischer acabaram levando-o a se tornar um pária. Ele morreu sozinho na Islândia em 2008. As crenças de Kasparov são indiscutivelmente não menos bizarras. No entanto, suas posições políticas estão alinhadas com as do governo dos Estados Unidos. Portanto, longe de ser rejeitado pela sociedade educada, Kasparov foi bem-vindo aos corredores do poder.

Mesmo que comentaristas o descrevam como “claramente perturbado” e tendo se tornado nada mais do que um “liberal que posta besteiras para o império dos EUA”, ele é tratado como um especialista e convidado para programas de notícias e reuniões de elite, como Bilderberg e a Conferência de Segurança de Munique, para compartilhar suas opiniões sobre a Rússia, a China, a guerra e a paz.

Em última análise, Kasparov é um homem de contrastes: um humanitário que apoia o genocídio em Gaza; um ativista democrático que defende a mudança de regime; um político russo que pede que seu próprio país seja atacado; e um gênio do xadrez que parece acreditar que a Idade Média foi forjada.

Sua trajetória profissional o levou de campeão mundial de xadrez a membro importante do complexo industrial de think tanks – uma jornada impressionante e fascinante, quer se veja nele uma voz inspiradora para a democracia ou o excêntrico favorito de Washington.

(*) Tradução de Raul Chiliani

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