Economia

Langston Hughes, o poeta da resistência negra

Há 59 anos, em 22 de maio de 1967, falecia o poeta, dramaturgo e militante dos direitos civis Langston Hughes.

Considerado um dos maiores intelectuais norte-americanos do século 20, Hughes foi pioneiro da “jazz poetry” e um dos líderes do chamado “Renascimento do Harlem”, célebre movimento de valorização das expressões culturais afro-americanas.

Ao longo de sua vida, Hughes produziu inúmeros poemas, ensaios, contos e romances exaltando a identidade negra e denunciando a segregação e a opressão racial. Sua obra se destacou por priorizar o enfoque sobre a vida dos marginalizados e das pessoas comuns, desafiando os estereótipos racistas e celebrando a cultura popular.

A simpatia pela União Soviética e pelas ideias socialistas e os vínculos com o Partido Comunista transformaram Hughes em um alvo da perseguição macarthista. O poeta foi monitorado pelo FBI e chegou a ser intimado a depor em um subcomitê do Senado nos anos 50.

Juventude e formação

James Mercer Langston Hughes nasceu em 1º de fevereiro de 1901, na cidade de Joplin, no Missouri. Era filho da professora Caroline Mercer Langston e do advogado James Nathaniel Hughes. Os pais se separaram quando Hughes ainda era pequeno. James foi viver no México e Caroline se mudou com o filho para Lawrence, no Kansas.

Como Caroline viajava frequentemente em busca de trabalho, Hughes foi criado pela avó materna, Mary Patterson. Ela era viúva de Charles Langston, militante abolicionista, fundador da Sociedade Antiescravagista de Ohio e organizador da resistência negra no Kansas durante a Guerra de Secessão.

A influência da avó foi decisiva na formação intelectual e política de Hughes. Mary contava histórias sobre a escravidão e sobre a luta pela emancipação do povo negro, ajudando a despertar a consciência racial que se tornaria tema basilar da obra literária do neto.

Após a morte da avó, Hughes foi viver com sua mãe e seu padrasto em Cleveland, Ohio, onde concluiu o ensino secundário. Ele iniciou sua carreira literária ainda na adolescência, escrevendo poemas e roteiros de peças de teatro. Publicava ensaios e poesias em jornais escolares e tinha enorme interesse por literatura, história e cultura afro-americana.

É desse período que data uma das obras mais famosas de Hughes — o poema The Negro Speaks of Rivers (“O Negro Fala dos Rios”), composto em 1920. O poema conecta a história da população negra aos grandes rios que contribuíram para o surgimento das civilizações humanas. Publicado pela The Crisis, a revista oficial da Associação Nacional pelo Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), The Negro Speaks of Rivers se tornaria um marco da poesia afro-americana.

Hughes se mudou para Nova York em 1921, a fim de cursar engenharia na Universidade Columbia. O ambiente racista da instituição, no entanto, logo o desmotivou. O poeta chegou a ser proibido de utilizar o dormitório da universidade e sofria com o tratamento hostil de professores e estudantes brancos, que não aceitavam a presença de um negro em sala de aula.

Farto das humilhações, Hughes abandonou o curso já em 1922. Ele passou a trabalhar como marinheiro em navios mercantes, viajando para a África e para a Europa. Viveu por um período em Paris, onde trabalhou como porteiro de uma boate e frequentou os círculos boêmios e intelectuais. Também morou na Inglaterra, onde estabeleceu fortes vínculos com a comunidade de expatriados afro-americanos.

De volta aos Estados Unidos, Hughes cursou a Universidade Lincoln, uma instituição de ensino tradicionalmente vinculada à comunidade afro-americana, localizada na Pensilvânia. Retornou a Nova York em 1929, após obter o bacharelado em artes.

Renascimento do Harlem

Durante o período em que viveu em Nova York, Langston Hughes se consagrou como um dos maiores expoentes do chamado “Renascimento do Harlem”, um dos mais importantes movimentos políticos e culturais da comunidade afro-americana.

O movimento era centrado no bairro do Harlem, o coração da cultura negra em Nova York, repleto de bares, clubes de jazz, teatros e editoras alternativas. Através do movimento, escritores, músicos, artistas e intelectuais negros buscavam afirmar sua identidade cultural e combater os estereótipos racistas profundamente arraigados na sociedade norte-americana.

Uma das mais importantes contribuições de Hughes ao Renascimento do Harlem foi a valorização da população negra como protagonista da literatura. Enquanto muitos escritores do período buscavam adaptar a linguagem e o conteúdo de suas histórias ao gosto da elite branca, Hughes tinha como enfoque a vida cotidiana da classe trabalhadora negra, evocando a linguagem, a música e as manifestações culturais de origem popular.

Em seu ensaio The Negro Artist and the Racial Mountain, publicado em 1926, Hughes defendeu que o negro precisava assumir plenamente sua identidade racial e cultural, sem emular os modelos euramericanos em busca da aceitação dos brancos. O texto se tornou uma espécie de manifesto do Renascimento do Harlem, tendo forte influência sobre os artistas e intelectuais das gerações posteriores.

Ainda em 1926, Hughes publicou The Weary Blues, sua primeira coletânea de poemas. Tendo como enfoque a vida dos negros nos grandes centros urbanos, o livro era pontuado por comentários sobre a pobreza, a exclusão social e a resistência cotidiana do povo negro.

Hughes também se destacou por sua profunda relação com a música negra norte-americana, sobretudo o blues e o jazz. Em seus versos, ele buscava reproduzir o ritmo sincopado do jazz e a melancolia do blues. Tornou-se, assim, um dos pioneiros da chamada “jazz poetry”, uma tendência poética que se ocupava em evocar o improviso e a cadência musical afro-americana.

Além dos poemas, Hughes produziu diversos ensaios, artigos jornalísticos, contos, romances, peças de teatro e letras de música. Entre suas obras mais conhecidas no campo da prosa está o romance Not Without Laughter. Inspirado na sua própria infância no Kansas, o livro retrata as dificuldades enfrentadas pelas famílias negras em uma sociedade segregacionista.

Sua série de contos sobre o personagem Jesse Semple, publicada em jornais como o Chicago Defender, tornou-se bastante popular pelo humor cáustico e pela crítica social. No campo da dramaturgia, Hughes escreveu mais de uma dúzia de peças de teatro, incluindo Mulatto (sucesso na Broadway em 1935) e Mule Bone. Também escreveu autobiografias e livros infantis e traduziu obras de autores africanos e latino-americanos.

: Langston Hughes fotografado por Carl Van Vechten em 1942.
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Viagem para a União Soviética

A despeito da genialidade de Hughes, o racismo exasperado da sociedade norte-americana e a segregação étnica validada pelas Leis de Jim Crow seriam obstáculos descomunais para sua trajetória profissional. A maioria dos jornais se recusavam a empregá-lo em função de sua cor. Para se sustentar, o poeta teve de trabalhar como garçom, lavador de pratos e carregador de malas em hotéis.

A crise econômica advinda da quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 tornou a situação ainda mais crítica e acirrou as tensões raciais nos Estados Unidos. Assim, em 1932, após receber um convite para se mudar para a União Soviética e participar da produção de um filme, Hughes não pensou duas vezes.

O poeta abraçou com entusiasmo a proposta e partiu para a União Soviética junto com um grupo de 22 jovens afro-americanos, todos selecionados para participar da empreitada. O filme soviético se chamava Preto e Branco. O enredo abordava a luta dos trabalhadores negros do sul dos Estados Unidos contra o racismo e a repressão, sob a perspectiva dos próprios afro-americanos.

O projeto era ambicioso. Numa época em que o cinema norte-americano estava repleto de filmes visceralmente racistas, estereotipando e ridicularizando os negros e exaltando a “supremacia branca”, o filme soviético seria a primeira grande obra cinematográfica a criticar o racismo.

Quando o grupo de jovens afro-americanos desembarcou na União Soviética, foram surpreendidos pela recepção calorosa da população. Os norte-americanos ficaram hospedados nos hotéis mais luxuosos de Moscou e foram presenteados com jantares regados a vinho, ingressos para o teatro, ópera, balé e festas com a presença de dignitários soviéticos quase todas as noites. Sobre a experiência, Hughes comentaria: “Eu nunca havia me hospedado num hotel como esse no meu país, já que, como regra, os negros não têm permissão para isso”.

Hughes ainda relatou sua surpresa com o fato de que vários dos afro-americanos do grupo começaram a namorar mulheres soviéticas sem que ninguém demonstrasse incômodo — uma ação que nos Estados Unidos poderia facilmente resultar em um linchamento nos anos trinta.

O filme Preto e Branco, entretanto, nunca foi concluído. Além de problemas técnicos de produção, o governo soviético iniciou uma breve política de distensão em relação aos Estados Unidos e julgou que seria mais diplomático paralisar o projeto. Muitos afro-americanos permaneceram na União Soviética, vislumbrando a possibilidade de uma vida melhor longe do racismo da sociedade norte-americana. É o caso de Wayland Rudd e Lloyd Patterson, que se tornariam estrelas da mídia local.

Langston Hughes retornou para os Estados Unidos, mas jamais esqueceria a experiência, convertendo-se em um defensor convicto da União Soviética, um admirador de Lenin e das ideias socialistas.

Retorno aos EUA, macarthismo e perseguição política

A experiência na União Soviética e as múltiplas viagens de Hughes ao longo dos anos 30 contribuíram para consolidar a sua percepção de que a segregação racial nos Estados Unidos estava intrinsecamente ligada à exploração capitalista e colonialista. Ele se tornou cada vez mais ativo em sua militância política, aproximando-se do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA), engajando-se nas mobilizações operárias e nas campanhas conduzidas por movimentos sociais.

Hughes também se tornou um crítico visceral da hipocrisia da democracia norte-americana — um dos temas tratados na coletânea de contos The Ways of White Folks, publicada em 1934. Travou contato com intelectuais politicamente engajados como Richard Wright e seguiu produzindo obras que referenciavam a tradição oral, a cultura negra e o humor popular.

Em 1937, Hughes viajou para a Espanha como correspondente de guerra para o jornal Baltimore Afro-American, cobrindo a Guerra Civil Espanhola e apoiando as forças republicanas. A experiência reforçou seu comprometimento com a resistência antifascista, um tema que se tornou recorrente nas obras produzidas nos anos 40.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a eclosão da Guerra Fria, Langston Hughes se tornou um alvo da vigilância do FBI. Em meio ao pânico moral da “ameaça vermelha” e da paranoia anticomunista do macarthismo, seus ensaios e antigas conexões políticas passaram a ser investigados.

Em 1953, Hughes foi convocado a depor diante de um subcomitê liderado pelo senador Joseph McCarthy. Durante a audiência, o poeta foi questionado a respeito de suas “ideias radicais” e seus vínculos com organizações comunistas. Sob pressão, Hughes negou possuir simpatias pelo pensamento revolucionário — uma atitude que lhe custou críticas de socialistas norte-americanos, mas que permitiu a sobrevivência de sua carreira artística.

Apesar da intimidação e da vigilância constante, Hughes permaneceu ativo na luta dos afro-americanos, apoiando o Movimento dos Direitos Civis e líderes como Martin Luther King. Seu trabalho inspirou diversos ativistas e sua residência no Harlem se tornou um ponto de encontro de artistas, intelectuais e militantes do movimento negro. Faleceu em Nova York, em 22 de maio de 1967, aos 66 anos.

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