Um trabalhador morto, 49 casas destruídas e mais de 160 pessoas desalojadas. Esse foi o saldo deixado pela explosão causada por uma obra da Sabesp no bairro do Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, em 11 de maio de 2026.
O acidente não é um evento isolado. A explosão no Jaguaré já é a quarta tragédia com mortes ocorrida desde a privatização da companhia. A queda na qualidade do serviço é inegável, como evidenciado pelo aumento de 70% no número de reclamações.
Fundada em junho de 1973, a Sabesp respondia sozinha por 30% de todo o investimento em saneamento básico feito no país e foi apontada por diversas vezes como a melhor empresa de água e esgoto do Brasil. Privatizada por Tarcísio de Freitas, a Sabesp deixou de ser uma estatal reconhecida e premiada pela excelência de seu serviço para se tornar a líder do ranking de reclamações do Procon.
O governador prometia que a venda resultaria em tarifas mais baixas, serviços melhores e universalização do saneamento. Entregou o oposto: aumento das contas, acidentes, explosões, mortes e até esgoto sem tratamento sendo lançado no Rio Tietê.
A Companhia Cantareira e a primeira privatização
Até meados do século 19, o abastecimento de água em São Paulo era feito por meio da coleta manual nos rios e córregos e por chafarizes espalhados em alguns pontos da cidade. Também não havia sistema de esgotamento, com a população dependendo do uso de fossas e descartando dejetos em rios e córregos.
O acelerado crescimento demográfico na capital paulista na segunda metade do século 19 logo converteu a ausência de um sistema de saneamento em um grave problema, resultando na proliferação de doenças. Epidemias de febre amarela, peste bubônica e varíola castigaram brutalmente a cidade.
Instado a resolver a questão do saneamento, o governo paulista concedeu a gestão dos serviços de água e esgotos da capital para uma empresa privada — a Companhia Cantareira. Também contratou a empresa francesa Achilles Martin D’Éstudens para iniciar o projeto de adução das águas da Serra da Cantareira para abastecer a capital paulista.
A Companhia Cantareira operava com subvenção do Estado, recebendo um grande montante de verbas do erário para expandir as ligações domiciliares de água. O serviço prestado, entretanto, era péssimo. O abastecimento era irregular e privilegiava as regiões nobres da capital.
Os moradores da cidade ficavam semanas sem ter abastecimento, pagavam caro e recebiam uma água de má qualidade, com gosto ruim e cheiro desagradável. E apesar dos subsídios governamentais, a maioria das obras nunca saiu do papel.
O descontentamento dos paulistanos atingiu seu ápice quando a Companhia Cantareira passou a destruir os chafarizes da cidade, visando obrigar a população a contratar ligações domiciliares. Em 1892, diante da insatisfação generalizada e da pressão gerada pelo incipiente processo de industrialização, o governo paulista resolveu intervir no serviço, estatizando a Companhia Cantareira e convertendo-a na Repartição de Água e Esgotos (RAE).
A estatização e a expansão da infraestrutura sanitária
Após a estatização, as obras foram aceleradas. A rede de esgotos foi estendida a toda a região central da cidade e iniciou-se a adução das águas dos rios Tietê e Cabuçu. O governo paulista ergueu a Estação Elevatória da Ponte Pequena, o reservatório da Consolação e autorizou a construção da Represa de Guarapiranga.
O setor privado, entretanto, seguiu pressionando por novas concessões e várias outorgas foram concedidas nos anos seguintes — a exemplo do sistema de abastecimento da Baixada Santista, entregue em 1897 à companhia inglesa “The City of Santos Improvements Co.”.
Nas décadas seguintes, multiplicaram-se as concessões dos serviços de abastecimento ao setor privado no estado de São Paulo, mas os investimentos mais relevantes na infraestrutura continuaram sendo feitos pelo poder público. É o caso dos projetos de engenharia sanitária idealizados por Saturnino de Brito, do Sistema Alto Cotia, da Barragem Pedro Beicht e da Represa Billings.
Diante da inércia do setor privado, diversas cidades viram-se obrigadas a criar suas próprias companhias municipais de água e esgoto. Na Grande São Paulo, quase todas as obras de saneamento ficaram a cargo do Departamento de Águas e Esgotos (DAE), autarquia criada em 1954 para substituir a RAE.
Nos anos 60, diante das demandas acumuladas pela urbanização e pelo crescimento do parque industrial desde a Era Vargas, o governo paulista lançou uma série de projetos visando estimular o investimento privado nas obras de segurança hídrica e saneamento — nomeadamente o Plano Hibrace.
A iniciativa, entretanto, rendeu poucos frutos e o governo paulista viu-se obrigado a agir por conta própria, implementando novas autarquias como a Comasp e a Sanesp. Mesmo assim, a população seguia aumentando em escala superior à oferta de saneamento básico, o que já se refletia na piora dos indicadores de saúde.
A criação da Sabesp
Em junho de 1973, visando implementar as diretrizes do Plano Nacional de Saneamento e universalizar o acesso à água e esgoto tratado no estado, o governo paulista fundou a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, ou Sabesp. A estatal foi criada através da fusão de seis autarquias e empresas de saneamento ativas no estado: Comasp, Fesb, Saec, Sanesp, Sanevale e SBS.
A criação da Sabesp teve papel essencial na consolidação da infraestrutura sanitária no estado e na resolução do desafio representado pela baixa disponibilidade hídrica da Grande São Paulo. Ao longo dos anos 70, a Sabesp cresceu exponencialmente, absorvendo a gestão dos serviços sanitários de centenas de municípios paulistas.
Diversas obras de grande porte foram executadas pela estatal nesse período. Em 1974, a Sabesp inaugurou a ETA Guaraú, uma das maiores estações de tratamento de água do mundo, responsável por abastecer metade da população da Grande São Paulo.
Em 1978, a estatal inaugurou o Emissário Submarino de Santos, o primeiro construído no Brasil. No ano seguinte, iniciou a construção do Reservatório Santa Tereza-Votoruá, o maior reservatório-túnel da América Latina.
A Sabesp expandiu em ritmo acelerado a rede de esgoto nos anos 80. Em 1985, a estatal concluiu o programa de fluoretação das águas do abastecimento público no estado, beneficiando 13 milhões de pessoas. Três anos depois, concluiu as obras da ETE Barueri, a maior estação de tratamento de esgoto da América Latina.
As grandes obras prosseguiram nos anos 90, com a inauguração do Sistema Alto Tietê, o segundo maior da Grande São Paulo, e a expansão do Sistema Adutor Metropolitano.
Como a Sabesp revolucionou o saneamento básico
Apenas 15 anos após sua fundação, a Sabesp já havia triplicado o índice de tratamento de esgoto na Grande São Paulo. O trabalho desenvolvido pela estatal foi fundamental para consolidar o avanço dos indicadores sociais do estado de São Paulo. A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, que era de 89,5 mortes para cada mil crianças nascidas vivas em 1970, despencou para 15,8 três décadas depois.
Malgrado os excelentes resultados, a empresa se tornou alvo do discurso privatista desde os anos 90. Alegando a necessidade de uma “reestruturação”, o governo paulista reduziu o quadro de funcionários da Sabesp, converteu a estatal em uma empresa de economia mista e passou a negociar suas ações na bolsa de valores.
Os bons resultados obtidos pela companhia ajudaram a arrefecer a pressão pela sua privatização. A Sabesp encabeçou algumas das mais importantes iniciativas ambientais do Brasil nas últimas duas décadas. Em 2007, lançou o Programa Onda Limpa, que teve impacto significativo na diminuição da poluição das praias do litoral paulista.
No mesmo ano, iniciou o Programa Córrego Limpo, que visava contribuir com a despoluição dos afluentes dos rios Tietê e Pinheiros. Também conduziu os bem-sucedidos projetos de despoluição dos rios Sorocaba, Jundiaí e Paraíba do Sul.
Entre 2011 e 2017, a Sabesp construiu ou expandiu mais de 100 estações de tratamento de esgoto no interior paulista. Na Grande São Paulo, iniciou a transposição do Rio Itapanhaú e finalizou as obras dos sistemas São Lourenço e Jaguari-Atibainha, ampliando a capacidade de abastecimento na região. Lançou igualmente o Programa Novo Rio Pinheiros, que beneficiou dois milhões de pessoas com o ciclo completo de saneamento básico.
O período também foi marcado pela ampliação do escopo da estatal, que inaugurou centrais voltadas à produção de energia hidrelétrica, energia solar e biogás e passou a atuar fora de São Paulo, fornecendo serviços para concessionárias de outros estados e até mesmo de outros países. A Sabesp também auxiliou na transposição do Rio São Francisco, fornecendo bombas, motores e equipamentos utilizados nas obras de quatro estados do Nordeste.
Os investimentos da Sabesp
Até 2024, a Sabesp respondia pelo abastecimento de água e coleta de esgoto de 375 dos 645 municípios de São Paulo, incluindo a capital. A empresa servia mais de 28 milhões de pessoas — cerca de 62% da população do estado — e possuía mais de 12 mil funcionários. Era a maior companhia de saneamento do Brasil e a terceira maior operadora de serviços de água e esgoto do mundo.
A Sabesp respondia por cerca de 30% de todo o investimento em saneamento básico feito no Brasil. Esses investimentos foram responsáveis por transformar São Paulo no estado com a maior cobertura sanitária do país, análoga aos índices de nações desenvolvidas, com 98% da população abastecida com água potável e 93,6% dos domicílios cobertos por redes de esgoto (dos quais 85% eram tratados).
Dos 375 municípios servidos pela estatal, 269 alcançaram a cobertura universal (isso é, 100% de água e esgoto tratado). A Sabesp administrava 120 mil quilômetros de redes de água e esgoto, mais de 800 estações de tratamento, 1.232 poços e 2.720 reservatórios com capacidade de armazenar 3,6 bilhões de litros de água potável.
A empresa se destacou pela qualidade de seu serviço, administrando 5 dos 20 melhores sistemas de saneamento do Brasil. Seu programa “Água Legal”, voltado à regularização do abastecimento em áreas de vulnerabilidade social, foi premiado pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU. Em 2018, a Sabesp foi uma das finalistas do “Global Water Awards” na categoria “Melhor Empresa de Água” do mundo.

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A privatização
Em 2023, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deu início ao processo de privatização da companhia. A autorização para a venda do controle acionário da Sabesp foi concedida pela Assembleia Legislativa através da promulgação da Lei 17.853.
A privatização foi concluída em julho de 2024, em um leilão sem concorrência. O governo paulista vendeu 32% do capital social da companhia, transferindo o domínio efetivo da Sabesp para a Equatorial Energia, empresa controlada pelo Banco Opportunity, de Daniel Dantas, e pela multinacional norte-americana BlackRock.
A Equatorial Energia foi a única empresa habilitada a participar da concorrência. Karla Bertocco, a presidente do conselho de administração da Sabesp, ocupava um assento no conselho gestor da Equatorial apenas sete meses antes da privatização. A transação rendeu ao governo paulista 14,8 bilhões de reais — um montante 44% inferior ao valor de mercado.
A venda foi celebrada de forma acrítica pela grande imprensa, que garantia que a privatização traria ganhos para a sociedade. Tarcísio de Freitas afirmou que a venda da Sabesp resultaria em tarifas mais baixas, em serviços mais eficazes e na universalização do saneamento básico no estado de São Paulo.
O otimismo parecia não ter lastro — até porque a Equatorial não possuía grande experiência ou know-how no setor de água e esgoto. Além disso, a privatização de serviços de saneamento e abastecimento de água está na contramão da tendência mundial.
Entre 2000 e 2023, ao menos 344 sistemas de água e esgoto outorgados à iniciativa privada foram retomados pelo Estado, a maioria dos quais na Europa e nos Estados Unidos. A privatização no setor tem se mostrado bastante ineficiente, gerando aumento das tarifas e piorando a qualidade do serviço.
A lógica desse processo é relativamente óbvia. Quando o serviço de saneamento é privatizado, a função da companhia deixa de ser o bem estar da população e passa a ser a maximização do lucro dos controladores e acionistas. Há redução de investimentos, enxugamento do quadro de funcionários e corte de programas e projetos vistos como dispensáveis para a lógica do retorno imediato.
A privatização da Sabesp não encontrava respaldo sequer sob o discurso fiscalista, já que a empresa era superavitária. Apenas em 2023, o lucro da estatal foi superior a 3,5 bilhões de reais.
A tragédia consumada
Não demorou para que a realidade se impusesse sobre a narrativa otimista da Faria Lima, difundida como “análise técnica” pela grande imprensa. Em menos de dois anos, todas as promessas relativas à privatização da Sabesp se mostraram falsas.
As contas de água ficaram mais caras. As tarifas foram reajustadas em 6,11% em 2025 — um valor bem acima da inflação oficial registrada no período, de 4,26%. O rompimento unilateral de contratos de desconto resultou no aumento de até 200% no valor das tarifas para grandes consumidores.
Visando diminuir os custos operacionais, a Equatorial já demitiu mais de 2.000 funcionários desde a privatização. As equipes de manutenção foram reduzidas, resultando em prazos cada vez maiores para atender emergências e consertar vazamentos.
De acordo com dados da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), a média mensal de reclamações contra a Sabesp saltou 70% após a privatização. No Reclame Aqui, as queixas aumentaram 72% entre 2024 e 2025, e a nota da empresa despencou de 3,21 para 2,38. O tempo médio de resposta aos consumidores pulou de menos de 4 dias para 77 dias.
Nas redes sociais, multiplicam-se os relatos de moradores alarmados ao perceber que a água agora chega amarelada, com gosto ruim e cheiro de mofo. As interrupções no abastecimento cresceram 224%, afetando, sobretudo, os moradores da periferia. Na Grande São Paulo, inúmeros bairros estão submetidos a um racionamento não declarado.
Os incidentes operacionais viraram rotina, expondo o desmonte e precarização da manutenção. Entre 2024 e 2025, o número de falhas e rompimentos na rede explodiu, saltando de sete para 52. Após o rompimento de uma tubulação, a Sabesp passou a lançar 216 milhões de litros de esgoto não tratado todos os dias no Rio Tietê.
Ainda mais graves sãos as tragédias que ceifaram vidas de trabalhadores e clientes da empresa. Conforme levantamento feito pelo Blog da Cidadania, antes da privatização, a Sabesp havia registrado somente três acidentes fatais em um período de 51 anos. Após a venda em 2024, a companhia já acumula cinco mortes.
Em março de 2025, dois trabalhadores terceirizados da Sabesp, de 24 e 40 anos, morreram soterrados durante uma obra de saneamento em Ubatuba. Sete meses depois, em setembro de 2025, uma senhora de 79 anos foi morta após uma tubulação de grande porte da Sabesp despencar sobre sua casa.
Em março de 2026, o rompimento de um reservatório em construção na cidade de Mairiporã matou um operário de 44 anos, feriu nove pessoas e danificou três casas e 10 veículos. Por fim, em maio de 2026, uma explosão causada por uma obra da empresa no bairro paulistano do Jaguaré matou um vigilante de 45 anos, destruiu 49 casas e deixou mais de 160 pessoas desabrigadas.
Enquanto os paulistas sofrem com explosões, buracos, interrupção do abastecimento e a má qualidade da água, a Equatorial Energia celebra os dividendos. Em 2025, a empresa obteve lucro líquido de 8,46 bilhões de reais com a Sabesp. Um montante bem mais generoso do que os 5.000 reais que foram ofertados como ajuda de custo às famílias que perderam suas casas na explosão do Jaguaré.
O post Privatização da Sabesp: crônica de uma tragédia anunciada apareceu primeiro em Opera Mundi.
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