Economia

Revolução dos Ganhadores: quando os carregadores negros paralisaram Salvador

Há 169 anos, em 1º de junho de 1857, eclodia em Salvador a Revolução dos Ganhadores, um símbolo da resistência negra e um marco histórico da luta da classe trabalhadora no Brasil.

O movimento foi protagonizado pelos “ganhadores” — trabalhadores negros, livres e escravizados, que atuavam no transporte de mercadorias, produtos e pessoas pelas ruas da capital baiana.

Reagindo à aprovação de um decreto abusivo que instituía a obrigatoriedade de registro, o pagamento de taxas e o uso de uma placa de metal numerada no pescoço, os ganhadores cruzaram os braços, paralisando totalmente as atividades logísticas de Salvador.

A greve se estendeu por 13 dias, sobrecarregando a alfândega, causando desabastecimento e prejuízos aos comerciantes da cidade. Pressionada, a Câmara Municipal foi forçada a revogar a medida, concedendo aos trabalhadores a vitória naquela que foi apontada por João José Reis como “a primeira greve geral da história do Brasil”.

A escravidão em Salvador e os ganhadores

O som dos pregões nas ruas, o movimento intenso do porto e a agitação dos mercados compunham o cotidiano de Salvador em meados do século 19. Movendo todas as engrenagens da economia da cidade, então a segunda maior do Império do Brasil, estava um enorme contingente de escravizados e negros livres.

Os negros compunham mais de 70% da população de Salvador. Somente os cativos respondiam por cerca de 40% da população da capital baiana. A maior parte eram africanos vindos da região do Golfo do Benim, sobretudo iorubás (também chamados de nagôs) e jejes, além de islamizados oriundos do norte da Nigéria, como os hauçás.

Muitos escravizados e negros livres de Salvador trabalhavam como ganhadores, isto é, carregadores responsáveis por transportar mercadorias, produtos e até pessoas em liteiras pelas ruas da cidade. Era comum que os donos de escravos permitissem que cativos atuassem como ganhadores, exigindo o pagamento de uma quota diária ou semanal e deixando o excedente para o próprio escravizado. Alguns conseguiam guardar pequenas quantias e, eventualmente, comprar a própria carta de alforria.

Essa relativa mobilidade urbana permitia que os escravizados circulassem por diferentes partes da cidade, estabelecendo formas de organização coletiva. O sistema mais comumente utilizado pelos ganhadores era a formação de “cantos” — pontos fixos de encontro espalhados pela cidade, onde os trabalhadores aguardavam pelos serviços.

Os cantos funcionavam como locais de recrutamento de mão de obra, mas também como espaços de sociabilização, auxílio mútuo, comércio e práticas religiosas. Cada espaço tinha autonomia para estabelecer suas próprias normas de funcionamento e era dirigido por um capitão-do-canto, eleito pela própria comunidade. Frequentemente os trabalhadores eram agrupados segundo origens étnicas, idiomas ou laços de amizade.

Os cantos permitiam a circulação rápida de informações. Notícias, oportunidades de trabalho, dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores e discussões sobre problemas comuns espalhavam-se rapidamente por essa rede informal.

Escravizados transportando um homem em uma liteira. Fotografia de Alberto Henschel de 1869
Via Wikimedia Commons

Os levantes de escravizados e a repressão

A grande presença de escravizados também fez da Bahia um dos epicentros da resistência antiescravagista no Brasil. Na primeira metade do século 19, a província registrou dezenas de rebeliões de escravizados.

A maior dessas revoltas foi o Levante dos Malês, ocorrido em Salvador em janeiro de 1835. Liderada principalmente por muçulmanos africanos, a insurreição mobilizou centenas de escravizados — metade dos quais trabalhavam como ganhadores organizados em cantos. Tentando tomar o controle da cidade, os rebeldes atacaram os quartéis e a Câmara Municipal.

A revolta foi duramente reprimida. Dezenas de combatentes foram mortos e centenas foram condenados à prisão, punição com açoites e degredo na África. Alarmadas com o levante e pressionadas pelas elites, as autoridades baianas endureceram ainda mais a repressão contra os escravizados e negros livres e elaboraram meios de intervir na organização política dos ganhadores.

Em junho de 1835, o governo provincial promulgou a Lei Nº 14, que determinava a substituição dos cantos por sistemas de capatazias supervisionadas. No lugar do capitão-do-canto, os trabalhadores passariam a responder às ordens de um capataz. Também seriam forçados a usar pulseiras de identificação e a efetuar registros mensais de suas atividades. Caso não o fizessem, eram punidos com multas de até 10.000 réis.

A lei enfrentou enorme resistência, tanto dos ganhadores quanto do resto da população. As novas normas encareceram o preço do transporte e dificultaram a circulação de mercadorias pela cidade. Os ganhadores boicotaram o novo sistema, prestando informações falsas ao registro e recusando o pagamento das multas. Em 1837, as autoridades acabaram por ceder à pressão e revogaram a medida.

Duas décadas depois, no entanto, em março de 1857, a Câmara Municipal de Salvador editou uma nova portaria, inspirada na legislação anterior e em medidas semelhantes implementadas no Rio de Janeiro.

A portaria previa que, a partir de 1º de junho, todos os ganhadores deveriam efetuar o registro na prefeitura e pagar uma taxa de 5.000 mil réis. Os trabalhadores também seriam obrigados a apresentar um fiador e a pagar para utilizar uma placa de metal numerada pendurada no pescoço.

Para os ganhadores, as regras eram inaceitáveis. Além de incorrer em custos adicionais em atividades marcadas por rendimentos modestos, a nova lei instituía uma forma de humilhação pública e submetia os trabalhadores a uma vigilância abusiva. Havia ainda o temor de que a regulamentação abrisse caminho para restrições ainda maiores no futuro.

A greve

Determinados a lutar contra a nova medida, os trabalhadores se articularam politicamente para pressionar as autoridades. No dia 1º de junho de 1857, a data prevista para que a portaria entrasse em vigor, os ganhadores de Salvador cruzaram os braços.

O movimento se notabilizou pela organização e pela abrangência. Articulada pelos cantos, a greve registrou adesão em massa dos carregadores, paralisando completamente o transporte em Salvador. Mercadorias ficaram retidas na alfândega, o comércio urbano foi bastante afetado e as liteiras não circulavam mais pela cidade.

A greve se estendeu por quase duas semanas. Como os ganhadores ocupavam uma posição central na logística urbana, sua ausência logo produziu impactos econômicos significativos.

Apenas um dia após o início da paralisação, o “Jornal da Bahia” publicava um artigo descrevendo a situação como “calamitosa”. Comerciantes reclamaram do desabastecimento e dos prejuízos e a Associação Comercial requisitou ao presidente da província, João Lins Vieira Cansanção, a revogação da taxa de registro.

A pressão para que os ganhadores voltassem ao trabalho tornou-se cada vez mais virulenta, mas a maior parte dos grevistas não cedeu. Os ganhadores realizaram piquetes e atacaram os “fura-greves” — escravizados que foram forçados a retornar ao trabalho por seus senhores.

No dia 5 de junho, o “Jornal da Bahia” publicou nova matéria rotulando a paralisação como “uma crise perigosa” e referindo-se ao movimento pelo nome que o consagraria na história: “uma revolução dos ganhadores”. Temendo que a greve se convertesse em um levante generalizado dos escravizados, a elite baiana pressionou o governo a agir.

João Lins Cansanção ordenou o fim da cobrança da taxa de registro, mas os ganhadores permaneceram em greve, exigindo a revogação da exigência de uso da placa de identificação. Por fim, em 9 de junho, a Câmara Municipal revogou a portaria e editou uma nova legislação.

O novo decreto mantinha a obrigatoriedade de registro, mas eliminava a taxa e substituía a necessidade de um fiador por um certificado de garantia, mais acessível aos trabalhadores. Gradualmente, os ganhadores retornaram ao trabalho. Em 13 de junho, a greve estava encerrada.

Negligenciada pela historiografia tradicional durante muito tempo, a Revolução dos Ganhadores tem atraído crescente atenção nas últimas décadas. Além de ser um símbolo da resistência negra ao regime escravagista, o episódio também se tornou um marco histórico da organização da classe trabalhadora, sendo considerada uma das primeiras greves gerais do Brasil.

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