Milhares de trabalhadores de um frigorífico da empresa brasileira JBS, uma das maiores processadoras de carne do mundo, iniciaram uma greve no estado do Colorado, nos Estados Unidos, em meio a acusações de práticas trabalhistas injustas, baixos salários e condições de trabalho inseguras.
A paralisação começou nesta semana na unidade da Swift Beef Co., em Greeley, uma das maiores plantas de abate do país, e envolve cerca de 3.800 trabalhadores sindicalizados, que cruzaram os braços após votação quase unânime.
Segundo o sindicato United Food and Commercial Workers (UFCW), 99% dos trabalhadores votaram a favor da greve, e mais de 2.600 já estavam nos piquetes nas primeiras horas do movimento.
Impasse nas negociações
A greve, que teve início na manhã desta segunda-feira, ocorre após meses de negociações fracassadas entre sindicato e empresa.
Em carta enviada ao departamento de recursos humanos da JBS, a presidente do UFCW Local 7, Kim Cordova, afirma que as partes se reuniram mais de duas dezenas de vezes desde maio de 2025, sem chegar a um acordo.
No documento, ela acusa a empresa de ignorar propostas e de não demonstrar interesse real em encerrar o impasse: “a empresa deixou claro que não tinha intenção de chegar a um acordo negociado”, escreveu.
Cordova conta que o sindicato chegou a reduzir significativamente suas demandas, cortando pela metade a diferença econômica entre as partes e abrindo mão de pontos defendidos por meses, na tentativa de viabilizar um acordo.
Ainda assim, ela afirma que a resposta da empresa foi limitada e não avançou nos principais pontos econômicos.
O documento também eleva o tom ao acusar a JBS de tentar pressionar trabalhadores a abandonar o sindicato.
Segundo Cordova, a empresa teria conduzido uma campanha para desmobilizar a greve, incluindo ameaças de demissão.
Salários e custo de vida no centro do conflito
O estopim da paralisação foi a proposta salarial apresentada pela JBS USA, considerada insuficiente pelos trabalhadores.
De acordo com o sindicato, a empresa ofereceu aumentos anuais inferiores a 2%, abaixo da inflação no estado do Colorado.
A reivindicação inclui não apenas reajustes, mas contratos que levem em conta o alto custo de vida na região.
‘Não valorizam os trabalhadores’
Funcionários que protestavam na madrugada desta segunda (16/03) em frente ao frigorífico relatam frustração com a falta de avanços.
“Eles não valorizam realmente os trabalhadores, e somos nós que ajudamos a gerar todo o lucro”, afirmou Letícia Avalos, representante sindical ao sinal local da CBS.
Outro trabalhador resumiu o sentimento: “os funcionários dedicam seus dias a essa empresa, e muitos sentem que isso foi um tapa na cara”.

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Condições de trabalho e denúncias
Além dos salários, a segurança no ambiente de trabalho é um dos principais pontos de tensão.
Relatos indicam problemas com equipamentos: “às vezes eles não fornecem facas afiadas… elas voltam sem condições adequadas de uso”, disse uma funcionária.
O sindicato afirma que os trabalhadores exercem algumas das funções mais perigosas do país e denuncia cobranças de até US$ 1.100 (cerca de R$ 5.500) por equipamentos de proteção.
Na carta, Cordova também critica a política da empresa de cobrar trabalhadores por equipamentos perdidos:
A prática, segundo ela, funciona como “um curativo pequeno para um problema muito maior”.
A mobilização deve ganhar força nos próximos dias. O sindicato convocou um ato público para esta terça-feira (17/03), no Promontory Park, em Greeley, em apoio aos trabalhadores em greve.
O movimento também vem recebendo apoio político. O senador pelo Colorado, John Hickenlooper, afirmou que “o direito à negociação coletiva é a forma como os trabalhadores conquistam acordos justos” e declarou estar ao lado dos funcionários da JBS.
Além disso, até acionistas da empresa têm demonstrado apoio aos trabalhadores, participando dos piquetes ao lado de membros do sindicato – um sinal, segundo organizadores, de que a disputa ultrapassa a questão salarial e envolve demandas mais amplas por condições justas de trabalho.
Histórico de controvérsias e concentração de poder
A JBS, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, também aparece no centro de críticas estruturais à indústria global da carne. No livro Raw Deal: Hidden Corruption, Corporate Greed, and the Fight for the Future of Meat, a jornalista Chloe Sorvino descreve a empresa brasileira como uma das forças dominantes, e controversas, do setor, ao lado de gigantes como Tyson, Cargill e Smithfield, que juntas controlam mais de 80% do mercado de carne bovina nos Estados Unidos.
A obra aponta que a expansão da JBS foi acompanhada por denúncias de corrupção, práticas anticompetitivas e problemas ambientais e trabalhistas. Segundo Sorvino, os principais acionistas da companhia, os irmãos Batista, ampliaram suas fortunas em meio a esse processo, consolidando o controle sobre uma parcela significativa do mercado global.
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