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Criança autista de 9 anos é agredida após defender o irmão mais velho vítima de bullying no litoral de SP


Menino autista foi agredido perto de escola após defender o irmão que estava sendo vítima de bullying em Praia Grande, SP
Arquivo Pessoal
Um menino de 9 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), foi agredido por estudantes próximo à Escola Municipal Professora Maria Clotilde Lopes Comitre Rigo, em Praia Grande, no litoral de São Paulo. Conforme apurado pelo g1, a vítima sofreu as agressões após defender o irmão mais velho, de 11, que estava sendo vítima de bullying por causa do peso.
Em nota, a Prefeitura de Praia Grande, por meio da Secretaria de Educação, informou que tomou ciência dos fatos pela equipe da escola, e que a ocorrência aconteceu antes da entrada da criança na unidade escolar (leia o posicionamento completo abaixo).
O menino agredido fisicamente é aluno do 4° ano da unidade. A mãe das vítimas, a auxiliar de produção Pamela Aparecida, disse que o filho de 9 anos estava chegando à escola, acompanhado do irmão mais velho e de outro mais novo.
Foi quando começou o bullying e houve a reação da criança autista. De acordo com o Boletim de Ocorrência (BO), enquanto a vítima apanhava, na última sexta-feira (22), o irmão mais novo correu para pedir ajuda, e o mais velho, alvo das ofensas pelo peso, foi ameaçado para não interferir.
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Uma mulher, que passava pelo local para buscar a filha na mesma escola, interveio, conseguiu retirar os irmãos da confusão e os levou até o trabalho de Pamela, que foi informada sobre o ocorrido. Na sequência, a mãe levou o filho à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Samambaia.
Pamela contou ao g1 que o filho relatou que mais de 20 estudantes fizeram uma roda ao redor dele e do irmão e o agrediram. Ela disse que o filho não ficou com hematomas, mas precisou de atendimento médico devido às dores e ao abalo emocional.
“Ela [mãe que socorreu] viu que poderia acontecer algo pior. Graças a Deus ela se meteu porque, inclusive, um dos garotos pegou um bloco [de concreto] para tacar na cabeça do meu filho e disse que ia derramar o sangue do meu filho”, disse Pamela.
A mãe dos garotos contou que, inicialmente, a escola não ofereceu ajuda, mas ao perceber que Pamela não se calaria, resolveu se manifestar. “[É um] trauma muito grande, tanto psicológico quanto emocional para meus filhos e para mim também. Me sinto de mãos atadas, vejo que não tem acontecido só comigo.”
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso foi registrado como lesão corporal pelo 3° Distrito Policial da cidade, que realiza diligências para esclarecer os fatos e identificar os autores.
Menino autista foi agredido perto de escola após defender o irmão que estava sendo vítima de bullying em Praia Grande, SP
Arquivo Pessoal
O que diz a prefeitura
A Prefeitura de Praia Grande afirmou que, diferente do alegado, a responsável foi devidamente atendida na escola e os fatos foram apurados junto aos alunos envolvidos, que foram identificados pela própria vítima. A equipe gestora comunicou à responsável as providências que seriam adotadas.
Segundo a administração municipal, o relatório foi enviado ao Conselho Tutelar, os alunos envolvidos foram encaminhados a serviços públicos de apoio, e o Conselho de Escola foi acionado para analisar possível infração às normas de convivência da unidade.
A prefeitura reforçou que as escolas municipais desenvolvem ações educacionais em razão do Protocolo Antibullying, sendo o tema amplamente discutido com alunos e comunidade.
Podcast debate o bullying
A presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) seção Santos, Simone Caetano Fernandes, participou do podcast Baixada em Pauta e falou sobre o combate ao bullying nas escolas, reforçando a importância do papel da família no processo de reconhecimento, amparo e educação dos estudantes.
O tema é um debate que se tornou recorrente no dia a dia do país e da região, principalmente após o caso do menino Carlinhos, um adolescente de 13 anos que morreu após ser agredido pelas costas por dois estudantes em uma escola de Praia Grande em abril do ano passado.
Baixada em Pauta aborda o bullying com representante da OAB-Santos
O bullying é definido pela Lei 14.811/24 como ato de intimidar, mediante violência física ou psicológica, de modo intencional, repetitivo e sem motivação evidente. Segundo a advogada, a prática pode ser relacionada à dinâmica familiar dos alunos que praticam a agressão.
VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos
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Caso Peretto: O que se sabe e o que falta esclarecer um ano após morte de comerciante que descobriu traição


Caso Igor Peretto: entenda o assassinato do comerciante que descobriu traição
O comerciante Igor Peretto foi encontrado morto no apartamento da irmã em Praia Grande, no litoral de São Paulo, há exatamente um ano. O Ministério Público denunciou Rafaela Costa (viúva), Marcelly Peretto (irmã por parte de pai) e Mário Vitorino (cunhado e sócio) por premeditarem e participarem do crime. Os acusados estão presos e aguardam a decisão da Justiça sobre a ida ou não a júri popular.
O caso aconteceu no dia 31 de agosto de 2024 e teve uma série de desdobramentos que repercutiram em todo o país. Por este motivo, o g1 reuniu tudo o que se sabe e o que falta esclarecer. Confira abaixo:
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O que se sabe sobre o caso Peretto?
Vítima descobriu traição
O crime
Participação dos acusados
Fuga e prisão
O que falta esclarecer?
Motivação do crime
Andamento do processo
Vítima descobriu traição
Mario Vitorino, Marcelly Peretto e Rafaela Costa foram presos por envolvimento na morte de Igor Peretto
Polícia Civil
Na madrugada do dia do crime, de acordo com o relatório do setor de investigação da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Praia Grande, Mário levava o Igor para a casa da mãe dele depois de uma festa, quando apareceu no painel do carro uma ligação do contato “Rafaela Cunhada” (esposa de Igor).
Vídeos mostram momentos antes e depois do assassinato de comerciante
Segundo o depoimento de Mário, o comerciante o obrigou a dirigir até o apartamento de Marcelly, onde estava Rafaela, para confrontar o suposto caso entre eles. Assim que chegaram no apartamento, a viúva não estava mais, e a discussão terminou com a morte de Igor.
À época dos fatos, o advogado da irmã da vítima, Leandro Weissmann, contou ao g1 que Marcelly e Rafaela tiveram um envolvimento amoroso no local do crime antes da chegada de Igor e Mario ao apartamento. O comerciante morreu sem descobrir a segunda traição da esposa.
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O crime
Reconstituição da morte de Igor Peretto foi registrada em história em quadrinhos
Laudo pericial
O crime aconteceu no dia 31 de agosto de 2024. Dentro do apartamento estavam Igor, Marcelly e Mário. Rafaela esteve com a irmã da vítima no imóvel, mas o deixou 13 segundos antes do marido chegar com o acusado pelo assassinato.
De acordo com o laudo necroscópico, obtido pela equipe de reportagem, o comerciante foi morto a facadas e teria ficado tetraplégico [sem movimento do pescoço para baixo] se tivesse sobrevivido aos ferimentos.
A gritaria no apartamento fez três moradores do prédio suspeitarem de um caso de feminicídio e acionarem a Polícia Militar (PM). Os agentes foram atender a ocorrência e encontraram o comerciante morto.
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Participação dos acusados
Câmeras de monitoramento filmaram últimos momentos de Igor Peretto
Reprodução
O Ministério Público concluiu que os acusados premeditaram a morte do comerciante. Eles foram denunciados pelo crime de homicídio com três qualificadoras, sendo elas:
➡️Motivo torpe [fútil]: Igor era um “empecilho no triângulo amoroso”.
➡️Meio cruel: Crime foi praticado com diversos golpes de faca contra o comerciante, causando-lhe intenso sofrimento.
➡️Recurso que dificultou a defesa da vítima: Igor estava desarmado e foi atacado por uma pessoa com quem tinha relacionamento próximo, e de quem não esperava mal.
Conforme relatado na denúncia do MP-SP, Rafaela atraiu o comerciante e, junto com Marcelly, incentivou Mário a matá-lo. A viúva também teria viabilizado a fuga dos comparsas e o esconderijo do amante.
De ‘quanto tempo o corpo começa a feder’ a ‘como privar’ rede social: veja as pesquisas de viúva após assassinato do marido
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Fuga e prisão
Mario, Marcelly e Rafaela continuam presos por decisão da Justiça
Reprodução
Mário e Marcelly fugiram após o assassinato, e se encontraram com Rafaela em um posto na Rodovia Governador Carvalho Pinto, no km 124, em Caçapava (SP), onde a viúva abandonou o carro e embarcou no veículo deles.
O trio seguiu para Campos de Jordão (SP), onde a irmã da vítima decidiu entrar em um carro por aplicativo e retornar para Praia Grande. Mario e Rafaela se hospedaram em um motel em Pindamonhangaba (SP). No mesmo dia, abandonaram o carro dele no Centro da cidade.
As mulheres se entregaram e foram presas em 6 de setembro, enquanto Mário foi detido após ser encontrado escondido na casa de um tio de Rafaela, em Torrinha (SP), no dia 15 do mesmo mês.
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O que falta esclarecer sobre o caso Peretto?
Qual foi a motivação do crime?
Marcelly participou da briga?
Viúva, irmã e cunhado vão a júri popular?
Qual foi a motivação do crime?
Câmeras de monitoramento filmaram últimos momentos de Igor Peretto
Reprodução
Além do “empecilho no triângulo amoroso”, a denúncia do MP-SP apontou que a morte de Igor traria “vantagem financeira” aos acusados. Mário poderia assumir a liderança da loja de motos que tinha em sociedade com o cunhado, enquanto a viúva receberia a herança. “Marcelly, que se relacionava com os dois beneficiários diretos, igualmente teria os benefícios financeiros”, destacou a promotoria.
O MP-SP ainda considerou a ação do trio um “plano mortal” contra Igor, mas os advogados dos presos negaram a versão apresentada.
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Marcelly participou da briga?
Mario Vitorino abraça Marcelly Peretto (à esq.) após assassinato do irmão dela; faca usada no crime (à dir.)
Reprodução
De acordo com o relatório da investigação, as informações sobre Marcelly ter saído da cena do crime com unhas quebradas e roupas manchadas de sangue não é compatível com a descrição de que ela teria ficado no quarto enquanto o irmão era esfaqueado pelo cunhado.
Ainda segundo a Polícia Civil, as contradições no depoimento de Marcelly põem em dúvida até que ponto ela estaria envolvida na ação que culminou na morte de Igor, bem como na omissão de socorro. O advogado dela negou a participação da cliente no homicídio.
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Viúva, irmã e cunhado vão a júri popular?
Trio acusado de envolvimento na morte de Igor Peretto chega a fórum para audiência
A primeira audiência de instrução ocorreu em 20 de março, quando as partes começaram a apresentar as provas e argumentos para o andamento do processo. A sessão no fórum precisou ser retomada em 7 de maio e, pela quantidade de testemunhas, foi marcado um novo encontro para 16 de junho.
Após os interrogatórios, o juiz deu um prazo para que as defesas apresentassem pedidos complementares, conhecidos como diligências, até 18 de junho. Em seguida, o Ministério Público e os assistentes da acusação foram intimados a apresentar as alegações finais.
Após essa etapa, as defesas teriam que apresentar as alegações finais para o juiz decidir se os acusados irão a júri popular ou se o processo será encerrado para algum deles.
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O que dizem as defesas após um ano?
Marcelly (irmã por parte de pai)
Rafaela (viúva)
Mário (cunhado e sócio)
Família de Igor
Marcelly (irmã por parte de pai)
Marcelly Peretto (à dir.) e Ifor
Reprodução/Redes Sociais
O advogado dela, Leandro Weissmann, afirmou que apresentou as alegações finais. “A prisão é ilegal e imotivada. Marcelly não contribuiu de qualquer forma para a morte do seu irmão Igor, seja em planejamento ou efetiva ação”, destacou o profissional.
Weissmann ressaltou que lida com provas, acrescentando que especulações de redes sociais, de familiares ou pessoas envolvidas pela emoção não refletem a verdade do processo. “A defesa de Marcelly espera serenamente a impronúncia [decisão para não levar a cliente a júri popular]”, finalizou.
Rafaela (viúva)
Rafaela Costa e Igor Peretto (à esq). Viúva chegando na DIG em Praia Grande (SP) (à dir.).
Reprodução/Redes Sociais e Matheus Croce/TV Tribuna
O advogado Yuri Cruz também apresentou as alegações finais e explicou que as provas demonstraram que Rafaela não participou, incentivou, planejou ou desejou a morte de Igor. O profissional afirmou que os depoimentos dos policiais civis comprovaram a inocência da cliente com relação ao crime de homicídio.
“Condutas eventualmente passíveis de críticas no plano moral não se confundem com responsabilidade penal, a qual somente pode ser reconhecida diante de provas concretas colhidas sob o manto da legalidade, o que inexiste no presente caso com relação à Rafaela”, disse o advogado.
Cruz destacou confiar que o Poder Judiciário resistirá as pressões externas e aos julgamentos fomentados nas redes sociais, decidindo pela impronúncia da viúva.
Mário (cunhado e sócio) e família de Igor
O g1 entrou em contato com a defesa de Mário, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Família de Igor
O assistente de acusação Felipe Pires de Campos disse acreditar que os fatos descritos na denúncia foram amplamente comprovados durante a instrução penal. “Infelizmente diversas inverdades foram criadas com o único intuito de desviar da verdade do que aconteceu, a trágica e cruel morte de Igor Peretto”.
De acordo com o advogado, não há como negar a participação de cada um dos três réus, seja na premeditação, na execução ou após a morte, com a fuga do local do crime e ocultação de provas.
“A família e a sociedade aguardam e acreditam em uma resposta firme da Justiça, que se aproxima, com a pronúncia dos três réus”, disse Felipe.
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Há um cartel de drogas liderado por Maduro na Venezuela, como afirma o governo Trump? Pesquisador diz que não é bem assim


EUA divulgam imagens de embarcações enviadas para a costa da Venezuela
Ao mesmo tempo em que os EUA estacionam uma frota de guerra de última geração e 4.000 militares perto da costa da Venezuela, o governo Trump reitera as acusações de narcoterrorismo contra o presidente do país, Nicolás Maduro.
Para Washington, Maduro é o chefe de uma organização criminosa chamada “Cartel de los Soles”, um poderoso grupo que atua no tráfico de drogas da América do Sul para os EUA, inclusive para desestabilizar a sociedade do país.
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A Casa Branca colocou o grupo na mira de seu aparato militar ao declarar as organizações de tráfico de drogas a organizações terroristas.
As conclusões do governo americano são contestadas, no entanto, por quem pesquisa o assunto.
Para especialistas, Maduro não seria o cabeça da organização, porque o Cartel de los Soles não é um grupo com uma hierarquia definida, mas uma “rede de redes” que facilita o tráfico de drogas e lucra com ele, composta de membros das mais diversas patentes militares e estratos políticos da Venezuela.
Apesar disso, há indícios de que Maduro, mesmo não sendo o líder, é um dos principais beneficiários de uma “governança criminal híbrida” que ele ajudou a instalar no país.
A definição vem do trabalho de Jeremy McDermott, cofundador e codiretor do InSight Crime, uma fundação que estuda o crime organizado nas Américas, já ouvidas por jornais como “The New York Times”, o “The Washington Post” e “The Guardian”.
Para ele, o Cartel de los Soles não é uma organização centralizada como alguns de seus “irmãos” mais famosos, como o Cartel de Sinaloa de “El Chapo” Guzmán ou o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar.
Maduro e os chavistas, ele diz, não controlam o tráfico e se beneficiam da compra e venda de cocaína, mas distribuem concessões a militares e aliados, em troca de sua manutenção no poder (leia mais abaixo).
McDermott viveu e trabalhou em Medellín, na Colômbia, por 25 anos, analisando os cartéis de drogas que atuam na região.
Nicolás Maduro durante discurso em 28 de julho de 2025
REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
Nome dado pela imprensa
O pesquisador explica que s origens do esquema vêm de muito antes de Hugo Chávez assumir o poder.
O nome “Cartel de los Soles” não foi dado pelos próprios integrantes, e eles provavelmente se identificam como parte do grupo, nesses termos.
“O nome Cartel de los Soles foi cunhado pela mídia, primeiro para descrever elementos corruptos da Guarda Nacional da Venezuela que estavam envolvidos no tráfico de drogas”, explica McDermott.
Ele foi usado pela primeira vez em 1993, na época dos julgamentos dos generais da divisão antidrogas Ramón Guillén Davila e Orlando Hernández Villegas, acusados de ligações com o tráfico.
O nome (Cartel dos Sóis, em português) vem das insígnias militares usadas pelos generais venezuelanos.
“O termo tem sido usado desde então para descrever todas as atividades de tráfico de drogas enraizadas no Estado e foi usado pelo Departamento de Justiça dos EUA na acusação que incluiu Nicolás Maduro”, completa o pesquisador.
Suas origens, portanto, são anteriores à eleição que marcou a ascensão de Hugo Chávez ao poder no país, em 1999.
O vaivém do deslocamento de navios militares dos EUA para a Venezuela
Cartel e chavismo
Segundo o InSight Crime, alguns fatores levaram à criação de laços entre o tráfico de drogas e o chavismo. Em primeiro lugar, na vizinha Colômbia, as FARC – grupo guerrilheiro de esquerda que usava o tráfico como forma de se financiar – era alvo de uma intensa campanha do então presidente Álvaro Uribe, com apoio militar dos EUA.
Isso levou as FARC a levar parte de suas operações ao outro lado de uma fronteira mal vigiada.
Em 2002, Chávez foi brevemente destituído por um golpe de Estado, rapidamente reconhecido por Washington.
Ele estaria de volta ao poder em menos de 48 horas, mas, depois do episódio, “Chávez procurou angariar apoio entre os militares elevando-os a cargos governamentais influentes ou dando oportunidades de contratos lucrativos, fazendo vista grossa à crescente corrupção militar”, diz o centro de pesquisa.
“Durante a presidência de Chávez, até sua morte, o tráfico de cocaína aumentou e os traficantes colombianos que dominavam o comércio foram cada vez mais substituídos por autoridades venezuelanas que trabalhavam com grupos rebeldes colombianos”, afirma McDermott.
Maduro no poder
A lógica de tolerância à corrupção militar depois que Chávez morreu, em 2013, deixando Nicolás Maduro em seu lugar.
Sem o líder do movimento, e frente a uma crise econômica, Maduro e o chavismo buscaram uma forma de manter os militares a seu lado: uma delas foi tolerar a associação deles com o tráfico. As propinas recebidas também serviram como uma forma de complementar o salário, num momento em que o poder de compra despencava no país.
“Nesse contexto, o Cartel de los Soles evoluiu para um sistema de patrocínio criminoso no qual a cocaína é usada para ajudar a sustentar o governo de Maduro”, diz o InSight Crime.
De acordo com o centro de pesquisas, o governo Maduro tem a capacidade de “premiar” militares leais com a lotação em áreas onde o tráfico fornece mais rendimentos.
O apoio ao tráfico se dá em várias frentes: na proteção de rotas de passagens da droga, eventualmente no transporte da cocaína em veículos oficiais, na cobrança de “pedágios” ou até mesmo providenciando o embarque do produto em portos em aeroportos.
“O tráfico de cocaína aumentou desde que Maduro assumiu o poder em 2013, mas o que realmente mudou foi o sistema de governança criminal híbrida que Maduro instalou para se manter no poder, que fez com que o tráfico de drogas se tornasse cada vez mais controlado e regulado de dentro do regime”, afirma McDermott.
Venezuela reage ao envio de navios militares americanos para região marítima do país
‘Versão de Hollywood’
No entanto, o centro de pesquisa aponta que o governo dos EUA faz uma simplificação e cria uma “versão de Hollywood” ao dizer que Maduro é o chefe do cartel.
Em 2020, durante o primeiro governo Trump, sancionou Maduro sob a alegação de ele ser “um dos líderes e gerentes do Cartel de los Soles”.
“O Cartel de Los Soles buscava não apenas enriquecer seus membros e aumentar seu poder, mas também ‘inundar’ os Estados Unidos com cocaína e infligir os efeitos nocivos e viciantes da droga aos usuários nos Estados Unidos”, dizia o anúncio do Departamento de Estado.
Washington colocou uma recompensa para qualquer informação que ajude a prender Maduro, atualmente reajustada para US$ 50 milhões (cerca de R$ 270 milhões).
Essa visão é contestada pelo InSight Crime: os membros do grupo têm objetivos muito mais econômicos do que ideológicos, tanto que o tráfico partindo da Venezuela aumentou tanto em direção aos EUA quanto à Europa.
“Hoje, o termo genérico ‘Cartel de los Soles’ mascara o fato de que o eixo Estado-tráfico de drogas é menos uma rede administrada pelos militares e políticos chavistas e mais um sistema que eles regulam”, define o centro.
“As evidências disponíveis sugerem que o regime de Maduro mantém o controle desse sistema em âmbito nacional não por meio da intermediação de negócios de cocaína, mas alocando e distribuindo concessões, nomeações eleitorais e garantindo proteção.”
Após declarar o cartel como uma organização terrorista, o governo Trump mobilizou um arsenal militar no Mar do Sul do Caribe, perto da costa venezuelana, incluindo navios capazes de lançar mísseis teleguiados a centenas de quilômetros de distância.
Especialistas contestam a capacidade dos militares americanos em lutar contra o tráfico com armas de guerra.
A conclusão é compartilhada por McDermott. Para ele, isso não vai impedir a chegada da droga nos EUA: “Tudo o que a mobilização naval fará é dificultar o tráfico marítimo via Venezuela, levando o comércio para outros pontos de partida na América do Sul”.
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Vídeo mostra apartamento de sargento da PM que desapareceu e deixou caderno com anotação enigmática


Vídeo mostra apartamento deixado aberto por sargento aposentado da PM que sumiu
Familiares do sargento aposentado da Polícia Militar, Emerson Lorençato Lopes, de 51 anos, que está desaparecido há mais de um mês em Praia Grande, no litoral de São Paulo, gravaram um vídeo mostrando como estava o apartamento onde ele vivia. Nas imagens, o imóvel aparece arrumado, com alimentos nos armários e panelas sobre o fogão (assista acima).
Conforme apurado pelo g1, Emerson deixou a porta do apartamento destrancada, com a chave na fechadura pelo lado de dentro, além de um caderno com anotações de telefones sobre a cama. A Polícia Civil investiga o caso.
Um boletim de ocorrência foi registrado pela família no dia 21 de julho. A irmã dele, Elen Valeria Lorençato, disse à equipe de reportagem que o sargento chegou a visualizar uma mensagem no WhatsApp quatro dias depois, mas não respondeu às ligações nem interagiu com novos contatos.
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No vídeo gravado pelos familiares, é possível ver roupas penduradas no varal e objetos pessoais do sargento no imóvel, como óculos de sol, chinelo, relógio de pulso e dinheiro sobre uma mesa com pão de forma, leite e duas bandejas de ovos.
Desaparecimento
Elen contou que percebeu o desaparecimento do irmão após receber uma ligação de uma corretora de imóveis, também no dia 21, informando que ele não havia pago o aluguel. Ela foi até o imóvel, localizado na Avenida Marechal Mallet, no bairro Canto do Forte, e encontrou a residência destrancada, com a chave na fechadura pelo lado de dentro.
Segundo Elen, a cama estava desarrumada, mas o restante do apartamento permanecia em ordem. O carro de Emerson estava na garagem do edifício. Ela afirmou que ele nunca havia desaparecido antes e não fez nenhuma publicação recente nas redes sociais.
Familiares de sargento aposentado que desapareceu há mais de 30 dias, em Praia Grande, registraram situação do apartamento dele encontrado aberto
Arquivo Pessoal
Dentro do imóvel, Elen também encontrou um caderno com anotações. Em uma das páginas, obtida pelo g1, estava o nome de outra irmã escrito em letras maiores, além de três registros de um número 0800 com a anotação “bom acordo”.
A mulher relatou o desaparecimento do irmão em um batalhão da PM e, em seguida, registrou o boletim de ocorrência na Central de Polícia Judiciária (CPJ) da cidade.
Polícia investiga o caso
Sargento aposentado da PM, Emerson Lorençato Lopes, de 51 anos, está desaparecido há mais de 30 dias em Praia Grande, SP
Arquivo Pessoal
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso é investigado pela Central de Polícia Judiciária de Praia Grande, que realiza diligências para localizar o homem e esclarecer os fatos.
Ainda segundo a SSP-SP, os detalhes da ocorrência serão preservados para garantir a autonomia do trabalho policial.
Caderno com anotações de telefones foi encontrado em cima da cama de sargento que desapareceu há mais de 30 dias, em Praia Grande (SP)
Arquivo Pessoal
Entenda: quando registrar um BO sobre desaparecimento?
É preciso esperar 24 horas para registrar um boletim de ocorrência de desaparecimento?
VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos
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Erros da esquerda, economia em baixa e alta do discurso liberal: o que fez a direita voltar ao poder na Bolívia após 20 anos


Como a direita chegou ao poder na Bolívia após 20 anos
A Bolívia terá pela primeira vez em 20 anos um presidente de direita, após uma série de governos de esquerda. O segundo turno acontece em 19 de outubro.
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Mas o que explica esse fenômeno?
No primeiro turno, que aconteceu em 17 de agosto, Rodrigo Paz Pereira (PDC), considerado centro-direita, terminou com 32% dos votos, seguido por Jorge “Tuto” Quiroga (Libre), mais ligado à direita conservadora, com 26%. Os dados são da OEP, o órgão eleitoral oficial da Bolívia.
Entre os partidos de esquerda, o Movimento ao Socialismo (MAS), partido histórico de Evo Morales e do atual presidente Luis Arce, conseguiu apenas 3% dos votos com Eduardo del Castillo, enquanto o candidato esquerdista mais votado, Andrónico Rodríguez, obteve 8%.
Entenda a seguir em 5 pontos quais são os principais fatores que levaram a direita de volta ao poder no país.
1. Desgaste de Evo Morales
Evo Morales
REUTERS/Agustin Marcarian
Líder sindical dos produtores de folha de coca, um cultivo tradicional da região, e primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales chegou ao poder em 2006 pelo partido MAS, prometendo dar voz às minorias historicamente marginalizadas. Sua vitória foi histórica: depois de anos de instabilidade política e governos conservadores, a esquerda assumia o comando do país.
Nos primeiros anos, Morales levou adiante políticas de nacionalização do gás e de distribuição de renda, que coincidiram com o boom das commodities. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia boliviana cresceu em média 5% ao ano entre 2006 e 2015, o que permitiu uma redução significativa da pobreza e consolidou imagem de Evo como líder popular.
A boa fase da economia ajudou a manter Morales no poder. Ele foi reeleito em 2009 e em 2014, após mudanças na Constituição que facilitaram a reeleição. Em 2016, porém, sofreu sua primeira grande derrota: perdeu um referendo que poderia permitir candidaturas sem limite de mandatos.
Mesmo assim, ele conseguiu autorização da Suprema Corte e do Tribunal Superior Eleitoral da Bolívia para disputar as eleições de 2019 — decisão que gerou críticas de que as instituições estavam agindo a favor do governo.
As eleições de outubro de 2019 mudaram o rumo da política boliviana. No dia 20, durante a apuração, o Tribunal Eleitoral interrompeu a contagem de votos sem dar explicações, quando mais de 80% das urnas já tinham sido apuradas.
Até aquele momento, a tendência era de que Morales disputasse o segundo turno contra o opositor Carlos Mesa. Mas no dia seguinte, quando a contagem foi retomada, o resultado apontou vitória de Evo já no primeiro turno, o que evitava o confronto direto com a oposição.
A Organização dos Estados Americanos (OEA), formada por todos os países independentes da América (como Brasil, Estados Unidos e Argentina), questionou na época a transparência do processo e identificou indícios de fraude, como cédulas alteradas e assinaturas suspeitas.
Nesse contexto, as ruas logo foram tomadas por protestos e a oposição passou a acusar Evo Morales de ter manipulado o resultado das eleições. Com o aumento da pressão, ele começou a perder apoio político. Na época, a polícia se negou a reprimir as manifestações e, pouco depois, as Forças Armadas recomendaram publicamente que o presidente renunciasse para evitar mais conflitos no país.
Isolado, Morales anunciou novas eleições, mas, antes mesmo que elas fossem realizadas, decidiu renunciar e deixar o país.
“Com toda essa tensão política, Evo fugiu primeiro para o México e depois para a Argentina, o que foi o fim de um ciclo de quase 14 anos no poder. Até hoje, os aliados dele dizem que aquilo foi um golpe de Estado, mas os críticos afirmam que a queda veio do desgaste político e da tentativa de se manter indefinidamente no cargo”, explica Paulo Velasco, professor de política internacional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
2. Economia em baixa
Crise na Bolívia levou à escassez de combustível; na foto, caminhões aguardam em fila para abastecer em Viacha, perto de La Paz em 2025
Jorge Mateo Romay Salinas/Anadolu via Getty Images/BBC
Além da tensão política, a economia também foi um fator crucial para o desgaste de Morales, do MAS e da esquerda como um todo.
O primeiro governo de Evo Morales, iniciado em 2006, coincidiu com um momento de forte crescimento econômico na América Latina. Foi o período do chamado “boom das commodities”, quando a China aumentou a demanda por matérias-primas e impulsionou preços de gás, petróleo e minérios.
Nesse período, Morales nacionalizou o setor de petróleo e gás, obrigou multinacionais a renegociar contratos e destinou parte dos novos recursos para políticas sociais e subsídios. “Com isso, a população boliviana viu uma melhora nas condições de vida, e o país passou a ser visto como exemplo de crescimento na América Latina”, informa o professor Paulo Velasco.
A gestão econômica tinha como pilar Luis Arce, então ministro da Economia, que ajudou a estruturar um modelo econômico que combinava nacionalizações com abertura ao setor privado e aumento da renda interna. Esse arranjo garantiu estabilidade e crescimento por quase uma década no país.
Mas a situação começou a mudar a partir de 2014. Com a queda dos preços das commodities no mercado internacional e a desaceleração econômica da China e do Brasil, principais parceiros comerciais da Bolívia, o crescimento do país começou a perder força.
Segundo o analista Paulo Velasco, a conjuntura econômica passou a ser “bem mais adversa” do que nos primeiros anos de Morales. A inflação cresceu, as reservas internacionais caíram e o Estado já não tinha a mesma capacidade de controlar os preços dos alimentos e combustíveis. A população começou a sentir o empobrecimento no dia a dia.
Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, aponta que o ponto mais crítico foi a crise cambial. A escassez de dólares fez o valor da moeda disparar no mercado, elevando os custos de importados e insumos agrícolas, como fertilizantes. Isso pressionou ainda mais os preços da comida.
“Na véspera do primeiro turno das eleições deste ano, a inflação anualizada era a maior em mais de 30 anos na Bolívia, em torno de 25%. Para um país onde mais de 60% da renda das famílias é dedicada à alimentação, o impacto foi devastador”, explica o professor.
O desgaste corroeu a base de apoio popular do MAS. As camadas mais pobres, que haviam sustentado Morales por tanto tempo, sentiram o peso da inflação e da perda de poder de compra.
3. Morales x Arce: autofagia na esquerda
Antigos aliados, Luis Arce e Evo Morales romperam e disputam liderança do MAS
Ronaldo Schemidt/AFP
Em 2020, depois da saída conturbada de Evo Morales da presidência, quem recebeu seu apoio direto para disputar e vencer as eleições foi Luis Arce, ex-ministro da Economia. No começo, Morales era o padrinho político que dava sustentação ao novo governo.
Porém, com o tempo, a relação entre os dois se desgastou. Arce passou a criticar as tentativas de Morales de interferir em seu mandato. “Arce percebeu que Evo queria continuar mandando dentro do MAS e também no governo, o que gerava atritos. Essa disputa enfraqueceu a unidade do partido e abriu espaço para a divisão da esquerda”, analisa o professor Paulo Velasco.
O rompimento ficou claro no primeiro turno das eleições deste ano. Arce, já impopular, não se candidatou. Pelo MAS, concorreu Eduardo del Castillo, ex-ministro do governo, que obteve apenas 3% dos votos. Morales, por sua vez, pediu aos eleitores que anulassem o voto.
Segundo o professor Leonardo Trevisan, esse movimento mostrou que Morales ainda tem força, já que, nas eleições de 2025, 19% dos eleitores votaram nulo. No entanto, o especialista avalia que foi um “tiro no pé”, porque acabou tirando a esquerda do segundo turno.
“Se somarmos os 19% de votos nulos aos 8% de Andrónico Rodríguez (AP), candidato de esquerda mais votado, o total seria maior que o resultado de ‘Tuto’ Quiroga, que passou ao segundo turno. Em outras palavras, a esquerda se dividiu e perdeu”, ressalta Trevisan.
Ele também aponta que esse cenário deixou claro o afastamento de Evo de seus antigos aliados. “Tanto Arce, que foi seu ministro e depois presidente, quanto Andrónico, que presidiu o Senado, acabaram se distanciando de Morales. Na prática, foi a maior derrota da esquerda em 20 anos”, completa o professor.
4- Guinada à direita na América do Sul
“Virada à direita” na América Latina, com Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador, influencia na volta da direita na Bolívia, dizem analistas
Reuters
Para analistas, dois fatores ajudam a explicar a vitória da direita nas eleições bolivianas de 2025:
De um lado, o resultado faz parte de uma “virada à direita” que vem mudando a política na América Latina, com líderes como Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador.
De outro, um padrão mais específico da Bolívia, onde a cada 20 anos o poder costuma alternar entre esquerda e direita.
O professor Paulo Velasco, da UERJ, lembra que essa alternância é recorrente na história recente do país. “Foi o que aconteceu em 2005, quando Evo Morales venceu pela primeira vez, depois de um longo período de governos de direita já desgastados”, afirma. Segundo ele, a Bolívia vive ciclos bem definidos: um grupo político governa por cerca de duas décadas, até que os eleitores decidem mudar totalmente de direção.
Antes de Morales, os anos 1990 e o início dos anos 2000 foram marcados por instabilidade: presidentes que não conseguiam terminar o mandato, partidos enfraquecidos e crises institucionais. Morales surgiu como resposta a esse cenário e, durante quase 14 anos no poder, consolidou o Movimento ao Socialismo (MAS) como a principal força política da Bolívia.
Agora, depois de um longo período de hegemonia da esquerda, a alternância volta a aparecer. “Quem vai ser testada agora é a direita”, observa Velasco.
Essa mudança também tem relação com o contexto regional. A chamada “onda rosa” — período em que governos de esquerda se fortaleceram em países como Bolívia, Brasil, Venezuela e Argentina nos anos 2000 — perdeu espaço diante de crises econômicas, inflação e insatisfação popular. Esse desgaste abriu caminho para novas lideranças conservadoras em várias partes da América do Sul, movimento que especialistas já chamam de “onda azul”.
“A América Latina tem sido assim nos últimos 10 a 15 anos: há uma oscilação natural entre direita e esquerda. Hoje, é raro um grupo político se reeleger por muito tempo. E isso é saudável, porque mostra pluralismo político e reforça a importância da alternância no poder na região”, conclui Paulo Velasco.
5- Conquista dos eleitores pelo discurso liberal
Rodrigo Paz Pereira e Jorge “Tuto” Quiroga vão disputar o segundo turno na Bolívia no próximo dia 19 de outubro.
Alzar Raldes/AFP
A vitória da direita nas eleições bolivianas de 2025 não se explica apenas pelo desgaste da esquerda. Analistas destacam que o resultado tem a ver com a conquista de eleitores desencantados com o governo e com a crise econômica.
O desencanto com a esquerda abriu espaço para um discurso alternativo: a direita passou a falar em redução de impostos e diminuição do tamanho do Estado. Para Paulo Velasco, esse discurso ajudou a direita a conquistar eleitores que antes se identificavam com o MAS.
De acordo com Velasco, a direita apresentou propostas que chamaram a atenção ao defender mudanças na economia e na posição internacional do país, aproveitando o descontentamento com a gestão do MAS e o fim da chamada “onda rosa” na América Latina. Entre os principais pontos estão a promessa de reduzir impostos, rever a participação da Bolívia em blocos internacionais e criticar a concentração de poder durante os anos de Evo Morales.
Já o professor Leonardo Trevisan destaca que a estratégia foi mostrar que havia espaço para oferecer estabilidade e segurança sem repetir o modelo da direita tradicional. Dentro desse cenário, Paz Pereira e Quiroga se apresentam com perfis distintos.
Jorge “Tuto” Quiroga (Libre), que presidiu a Bolívia entre 2001 e 2002 — após a renúncia de Hugo Banzer, de quem era vice —, defende uma economia mais liberal, com abertura para acordos externos e menor intervenção do Estado.
Rodrigo Paz Pereira (PDC), filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, foca em propostas voltadas para inclusão social e apoio às populações urbanas e rurais mais afetadas pela crise econômica.
Essa diferença de discurso ajudou a direita a alcançar públicos variados: enquanto Quiroga atraiu quem buscava experiência, segurança e estabilidade, Paz conquistou apoio de setores diretamente atingidos pela crise.
“Quiroga aparece como o mais experiente e com maior capacidade política de influenciar o sistema boliviano, apoiado por redes políticas nacionais e internacionais. Paz Pereira, embora menos estruturado politicamente, tenta parecer um outsider e promete uma abordagem mais inclusiva e social, além de manter boa relação com parceiros internacionais, como o Brasil”, conclui o professor Paulo Velasco.
Infográfico mostra o resultado do primeiro turno das eleições de 2025 na Bolívia
Arte/g1
* Sob supervisão de Ricardo Gallo
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